Desde o pulsar sintético de “Prelude”, onde arpejos vaporosos de sintetizador dialogam com trechos falados, fica clara a vontade de Miley Cyrus em criar uma abertura cinematográfica, digna de trilha sonora de ficção científica em seu novo álbum Something Beautiful. A fórmula, porém, mais confunde do que introduz: a sucessão de timbres — do Moog protegido a solos de violino — carece de um propósito narrativo que justifique cada virada. A sensação é de um laboratório de texturas sonoras em que faltou um ensaio geral para alinhar intenções.
A faixa-título surge como promessa de redenção: um soul contido que, em seu segundo ato, irrompe em saxofones rasgados e guitarras ríspidas de Adam Granduciel. O contraste ocorre no melhor momento vocal de Cyrus, cuja tessitura quente ganha relevo nos agudos quebrados, mas a letra ainda patina em metáforas planejadas para encaixar esquema de rimas e não para descrever emoções concretas. Fica a impressão de que o arroubo serve mais para exibir técnica do que para dar substância ao que se deseja contar.
Na construção melódica de “More to Lose”, a artista flerta com balada oitentista: piano esparso, sax suave e um baixo discreto. É curioso sentir nostalgia por essas texturas. A interpretação de Cyrus mantém dignidade — cada nota soa medida — porém o arranjo e o texto não avançam rumo a um território autoral mais profundo.
Quando o disco flerta com dance pop em “Easy Lover” e “Walk of Fame”, a produção de Brittany Howard e Danielle Haim aporta riffs de guitarra e batidas programadas que poderiam ressoar bem em uma pista. No entanto, esses singles se apoiam em refrões genéricos e declamações grandiloquentes que tendem a soar mais tributo a tendências do que expressão própria. A ambição de mesclar rock, disco e pop alternativo revela-se, em última instância, um mosaico de referências: cada elemento brilha isoladamente, mas não consegue formar um todo coerente.
“Every Girl You’ve Ever Loved” traz um interlúdio falado de Naomi Campbell e sintetizadores evocando passarelas noturnas, mas a peça não sustenta a expectativa criada pelo casting de luxo. A letra sobre relacionamentos efêmeros avança em listas de atributos, mas não gera empatia. Resta o encanto superficial de frases que passam sem deixar marcas no repertório do álbum. Ou seja, a construção conceitual de algo “gayest” ou “pop opera” não se traduz em densidade narrativa.
Nas pistas finais, “Reborn” e “Give Me Love” tentam fechar o ciclo com arranjos orquestrais e temas de renascimento, porém a costura entre drama e desfecho soa abrupta. As cordas elevam o tom, mas não há motivo emocional para o clímax: mergulhamos num turbilhão de texturas sem saber ao certo o que celebrar ou lamentar. É como se o álbum aspirasse ao monumental, mas se esquecesse de estabelecer aquilo que torna cada grande canção verdadeiramente memorável: uma história que se revela, nota a nota, até a última frase.
Something Beautiful revela o desejo de Miley Cyrus de experimentar sem se limitar a um gênero ou a expectativas comerciais. O registro vocal permanece um de seus maiores trunfos, ainda que subaproveitado; e o elenco de colaboradores impressiona, mas escapa ao controle de uma direção artística clara. Fica a lição de que ambição sonora não basta: é preciso tensão dramática e narrativa consistente para que cada risco reverbere no ouvido, e não se dissolva em um simples desfile de estilos.
“Something Beautiful”, Miley Cyrus









Deixe um comentário