Numa rua suburbana banhada por uma luz pálida e uma quietude quase absoluta, uma colisão súbita e desprovida de espetáculo quebra o silêncio. Juan, um adolescente com o rosto impenetrável, acaba de bater o carro da família contra um poste. A partir deste incidente banal, Fernando Eimbcke desenrola uma odisseia minimalista e melancólica, uma peregrinação por uma paisagem urbana sonolenta em busca de uma peça de automóvel específica para consertar o motor e, talvez, algo mais.
A busca de Juan transforma-se numa série de encontros fugazes e estranhamente ternos. Ele cruza o caminho de um velho mecânico mais preocupado com a saúde do seu cão do que com o motor avariado; de uma jovem solitária atrás do balcão de uma loja de peças, cuja indiferença espelha a sua; e de um aspirante a punk rock que ensaia furiosamente numa garagem. Cada interação é um microcosmo de desconexão, pontuado por um humor impassível e diálogos que revelam mais nos seus silêncios do que nas suas palavras.
Progressivamente, Eimbcke revela que o motor avariado é um espelho para uma fratura emocional muito mais profunda, e que o autocolante “Lake Tahoe” no vidro traseiro do carro não é apenas um destino, mas a promessa de uma memória familiar que nunca se concretizou. Com a mesma precisão geométrica e comédia impassível que definiram “Temporada de Patos”, o realizador constrói um retrato comovente e subtil do luto. O filme não é sobre consertar um carro, mas sobre os pequenos e desajeitados passos que se dão em direção a uma dor que ainda não tem nome, num mundo onde a comunicação falha e apenas os gestos modestos oferecem um vislumbre de consolo.
“Lake Tahoe” está disponível no MUBI.









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