Em um mundo saturado de iconografia religiosa e violência farsesca, um ladrão de aparência messiânica atravessa cenários de depravação e exploração comercial da fé. Sua jornada errática o leva a uma torre imponente, onde um Alquimista enigmático o submete a um processo de purificação simbólica, transformando seus dejetos em ouro. Este ato inicial estabelece o tom para o que se seguirá: uma operação cinematográfica que visa desmantelar as ilusões materiais para revelar uma verdade mais fundamental sobre a consciência. O Alquimista então reúne o ladrão a sete das figuras mais ricas e influentes do sistema solar, cada uma representando um planeta e um setor corrupto da sociedade, desde a fabricação de armas e a indústria cosmética até a manipulação política e a arte massificada.
Após serem apresentados em vinhetas que expõem a absurdidade de seu poder, esses indivíduos são convencidos a renunciar a toda a sua fortuna e influência. Juntos, sob a tutela do Alquimista, eles formam um grupo heterogêneo que se prepara para a derradeira peregrinação: escalar a Montanha Sagrada, um lugar mítico onde residem nove mestres imortais que detêm os segredos do universo. A preparação é um ritual psicodélico por si só, envolvendo práticas esotéricas, confrontos com o próprio ego e a destruição literal dos símbolos de suas vidas passadas. A narrativa se desdobra menos como uma história convencional e mais como uma sequência de quadros alegóricos, cada um projetado para provocar uma reação visceral e intelectual no espectador.
A obra de Alejandro Jodorowsky é um exercício de descondicionamento visual, onde o excesso e o grotesco são ferramentas precisas para quebrar a passividade da audiência. Cada cena, por mais chocante, funciona como um símbolo alquímico destinado a ser decifrado. A jornada do grupo ecoa, de certa forma, preceitos do Quarto Caminho de Gurdjieff, onde a iluminação não vem do isolamento ascético, mas da confrontação e transmutação das próprias falhas e apegos mundanos diretamente no campo da vida. O filme opera nessa lógica, usando a sátira social mais cáustica como matéria-prima para uma busca espiritual.
O clímax na montanha não oferece uma recompensa mística convencional. Em seu movimento final, Jodorowsky executa um dos gestos mais ousados da história do cinema, puxando o tapete de sob os pés de seus personagens e, por extensão, do público. Ele aponta a câmera para fora da ficção, em um ato que reconfigura a relação entre a obra, seu criador e o espectador. Com essa manobra, A Montanha Sagrada se consolida não apenas como um pilar do cinema surrealista e da contracultura dos anos 70, mas como um artefato permanentemente provocador sobre a natureza da realidade, da arte e da própria busca por significado.









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