Sailor Ripley, um jovem rebelde de visual Elvis, e Lula Pace Fortune, uma loira fatal com apetite por perdição, incendeiam a tela em Coração Selvagem, um road movie ácido de David Lynch que pulveriza clichês românticos e cospe fogo para todo lado. A dupla, fugindo de uma Nova Orleans carregada de sombras e de uma mãe controladora obcecada em tramar a morte de Sailor, pisa no acelerador rumo à Califórnia, mas o asfalto se revela um palco grotesco habitado por figuras bizarras e perigosos fantasmas do passado.
O que começa como uma fuga juvenil e apaixonada rapidamente descamba para um pesadelo surrealista, onde violência explode em momentos inesperados e a sanidade parece ser um artigo de luxo. Lynch, com sua câmera voyeurística e trilha sonora que mescla Elvis Presley com heavy metal, nos joga em um turbilhão de paixão obsessiva, inveja doentia e personagens à beira do abismo. A cada parada em motéis decadentes e bares de beira de estrada, o casal se depara com um mosaico de decadência americana, revelando a face sombria do sonho prometido.
O filme, mais que um conto de amor e fuga, é uma reflexão sobre o determinismo. Seriam Sailor e Lula reféns de seus instintos mais primitivos e de um destino traçado pelas forças obscuras que os cercam, ou teriam a capacidade de transcender a brutalidade e encontrar redenção em meio ao caos? A resposta, como de costume em Lynch, é incerta, mas a jornada, visceral e perturbadora, é inesquecível. A cereja do bolo é o talento inegável de Nicolas Cage e Laura Dern, que entregam performances icônicas, elevando a bizarrice do roteiro a níveis estratosféricos e cimentando Coração Selvagem como um marco do cinema transgressor.









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