A chegada de Suzy Bannion à Alemanha é um batismo de fogo e chuva. A jovem bailarina americana aterra em Friburgo com o sonho de aperfeiçoar a sua arte na prestigiada Academia de Dança Tanz, mas encontra as portas fechadas e uma outra aluna a fugir em pânico para a noite tempestuosa. Pouco depois, essa mesma aluna é violentamente assassinada, numa sequência que estabelece de imediato o léxico visual do filme: cores primárias saturadas, arquitetura impossível e uma brutalidade que é tão estilizada quanto chocante. No dia seguinte, Suzy é finalmente admitida, mergulhando num ambiente onde a disciplina rigorosa da dança mal consegue mascarar uma corrente subterrânea de hostilidade e segredos.
O interior da Academia de Dança Tanz é uma explosão geométrica de Art Nouveau, um espaço onde cada corredor e cada sala parecem conspirar contra os seus ocupantes. Sob o comando da enigmática Madame Blanc e da autoritária Miss Tanner, as alunas vivem num estado de constante tensão. Eventos bizarros tornam-se rotina: uma infestação de larvas que força todas a dormirem num salão comum, sons de passos inexplicáveis durante a noite e o desaparecimento súbito de quem ousa questionar a autoridade da instituição. Suzy, fragilizada por um mal-estar súbito, começa a juntar as peças de um quebra-cabeças macabro, auxiliada por pistas deixadas pela sua amiga Sara, que também investigava os mistérios da academia antes de desaparecer.
A paleta de cores primárias de Dario Argento não serve a um realismo, mas a uma lógica de conto de fadas perverso, onde o vermelho-sangue e o azul-gelo pintam as emoções diretamente no ecrã. A fotografia de Luciano Tovoli, a cenografia opressora e a partitura dissonante e hipnótica da banda Goblin não são complementos à narrativa; elas são a narrativa. O filme opera quase como um exercício de fenomenologia do pavor: a experiência de Suzy não é sobre decifrar uma conspiração lógica, mas sobre a rendição sensorial a uma realidade cujas regras são estéticas e sobrenaturais, não racionais. É a primazia da sensação sobre a razão, transformando a jornada da protagonista numa descida a um estado de sonho febril do qual talvez não haja despertar.
Ao seguir as pistas sobre a fundadora original da escola, a emigrante grega Helena Markos, supostamente morta há anos, Suzy descobre que a academia é a fachada de algo muito mais antigo e malévolo. A busca pela verdade leva-a por passagens secretas até ao coração oculto da instituição, onde a fachada de normalidade se desintegra por completo, revelando a verdadeira natureza das suas diretoras. Suspiria permanece uma obra fundamental do terror italiano não pela complexidade do seu enredo, mas pela sua audácia formal. É uma peça de cinema puro, uma experiência sensorial avassaladora que utiliza som e imagem para gerar um estado de desorientação e pavor que poucas obras conseguiram replicar.









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