Num futuro distópico que se parece estranhamente com a Paris de 1965, o agente secreto Lemmy Caution chega à cidade-estado de Alphaville. Com o disfarce de um jornalista do Figaro-Pravda, sua aparência é a de um detetive de filme noir americano, completo com o sobretudo e a cara amarrada, mas sua missão é puramente de ficção científica: encontrar o dissidente Professor von Braun e destruir a entidade que controla cada aspecto da vida local, o supercomputador Alpha 60. Nesta metrópole regida pela lógica pura, qualquer demonstração de emoção, do amor ao choro, é um crime capital, e palavras consideradas ilógicas foram banidas do dicionário. Os infratores são sumariamente executados em cerimônias públicas numa piscina, um batismo macabro para uma sociedade que afogou a própria alma.
A investigação de Caution o coloca em contato com Natacha von Braun, filha do criador de Alpha 60 e uma programadora que personifica a apatia da cidade. Ela é uma figura enigmática, sedutora por programação, mas com uma curiosidade latente que o sistema não conseguiu erradicar por completo. A interação entre os dois forma o núcleo do filme de Jean-Luc Godard. Ele a bombardeia com perguntas sem sentido e recita versos do poeta Paul Éluard, usando a poesia não como romance, mas como uma arma para perfurar a lógica impenetrável que a aprisiona. A obra de Godard se distancia da construção de mundos fantásticos com efeitos visuais, optando por filmar em locações parisienses modernistas, transformando a arquitetura fria e os corredores de vidro da época em um cenário alienígena. O futuro, aqui, não é um tempo distante, mas uma condição mental que já se infiltrava no presente.
O filme postula que o controle totalitário mais eficaz não é exercido pela força, mas pela degradação da linguagem. Alpha 60 não precisa de exércitos quando pode simplesmente eliminar a palavra “consciência”, tornando o próprio conceito impensável para os seus cidadãos. A jornada de Lemmy Caution é menos sobre uma conspiração intergaláctica e mais sobre a reintrodução de um vocabulário humano fundamental. A fotografia em preto e branco de alto contraste, característica do noir, é utilizada por Raoul Coutard para acentuar a guerra fria entre a luz da individualidade e a escuridão da conformidade. Ao final, a salvação não vem de uma explosão espetacular, mas do aprendizado de uma única frase, uma declaração que a lógica de Alpha 60 é incapaz de processar, provando que a humanidade pode ser, em sua essência, uma bela e necessária falha no sistema.









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