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Filme: “Ida” (2013), Paweł Pawlikowski

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Na Polônia de 1962, a paisagem é tão despojada quanto a vida em um convento. Anna, uma jovem noviça de dezoito anos, está à beira de proferir seus votos sagrados, o culminar de uma existência dedicada ao silêncio e à fé. Antes de se entregar permanentemente a Deus, a madre superiora a instrui a visitar sua única parente viva, Wanda Gruz, uma tia que ela nunca conheceu. O encontro, no entanto, abala os alicerces de sua identidade. Wanda, uma juíza cínica e fumante inveterada, ligada ao regime comunista e com um passado sombrio como promotora stalinista, revela a verdade em uma frase cortante: o nome de Anna é Ida Lebenstein, e ela é judia. Seus pais foram mortos durante a ocupação nazista. Assim, o que começa como uma obrigação protocolar se transforma em uma jornada de carro pelo interior polonês, unindo duas mulheres que representam mundos opostos em uma busca pela sepultura de sua família e pelas verdades que a neve e o tempo tentaram encobrir.

A viagem de Ida e Wanda é o motor de um filme que opera na contenção e na precisão. Pawlikowski articula o roteiro através de um contraste poderoso: de um lado, a pureza quase etérea de Ida, cujo mundo foi definido por dogmas e rituais; do outro, a amargura mundana de Wanda, que afoga em vodca e encontros casuais as atrocidades que testemunhou e perpetrou. Enquanto percorrem vilarejos e entrevistam pessoas que prefeririam esquecer, a dinâmica entre elas evolui. Wanda, com seu pragmatismo brutal, força Ida a confrontar as ambiguidades do mundo secular, incluindo a breve tentação de uma vida comum ao conhecer um jovem e charmoso saxofonista. O filme não se apoia em diálogos expositivos, mas nos silêncios, nos olhares e nos gestos que carregam o peso de uma história nacional e pessoal trágica. A busca pelo passado de Ida acaba por se tornar um acerto de contas com o presente de Wanda.

A fotografia em preto e branco, capturada em uma rara proporção de tela de 4:3, não é um mero filtro estético, mas um dispositivo narrativo fundamental. As composições de Paweł Pawlikowski e do diretor de fotografia Łukasz Żal frequentemente posicionam os personagens nos terços inferiores do quadro, oprimidos por tetos, paredes vazias ou um vasto céu cinzento. Essa escolha visual cria uma sensação de aprisionamento, tanto físico quanto existencial. Ida é confrontada com o que a filosofia poderia chamar de sua facticidade: um conjunto de fatos sobre seu nascimento e sua herança que ela não escolheu, mas que agora definem o campo de suas possibilidades. Sua jornada não é apenas sobre descobrir quem ela era, mas sobre decidir quem ela será. A estética austera do filme, com seus enquadramentos estáticos e sua recusa em mover a câmera para seguir a ação, força o espectador a observar, a sentir a densidade do tempo e a gravidade das escolhas. ‘Ida’ é um trabalho de imensa elegância formal, uma meditação sobre fé, memória e os caminhos que se abrem quando os pilares da identidade são irrevogavelmente removidos.

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Na Polônia de 1962, a paisagem é tão despojada quanto a vida em um convento. Anna, uma jovem noviça de dezoito anos, está à beira de proferir seus votos sagrados, o culminar de uma existência dedicada ao silêncio e à fé. Antes de se entregar permanentemente a Deus, a madre superiora a instrui a visitar sua única parente viva, Wanda Gruz, uma tia que ela nunca conheceu. O encontro, no entanto, abala os alicerces de sua identidade. Wanda, uma juíza cínica e fumante inveterada, ligada ao regime comunista e com um passado sombrio como promotora stalinista, revela a verdade em uma frase cortante: o nome de Anna é Ida Lebenstein, e ela é judia. Seus pais foram mortos durante a ocupação nazista. Assim, o que começa como uma obrigação protocolar se transforma em uma jornada de carro pelo interior polonês, unindo duas mulheres que representam mundos opostos em uma busca pela sepultura de sua família e pelas verdades que a neve e o tempo tentaram encobrir.

A viagem de Ida e Wanda é o motor de um filme que opera na contenção e na precisão. Pawlikowski articula o roteiro através de um contraste poderoso: de um lado, a pureza quase etérea de Ida, cujo mundo foi definido por dogmas e rituais; do outro, a amargura mundana de Wanda, que afoga em vodca e encontros casuais as atrocidades que testemunhou e perpetrou. Enquanto percorrem vilarejos e entrevistam pessoas que prefeririam esquecer, a dinâmica entre elas evolui. Wanda, com seu pragmatismo brutal, força Ida a confrontar as ambiguidades do mundo secular, incluindo a breve tentação de uma vida comum ao conhecer um jovem e charmoso saxofonista. O filme não se apoia em diálogos expositivos, mas nos silêncios, nos olhares e nos gestos que carregam o peso de uma história nacional e pessoal trágica. A busca pelo passado de Ida acaba por se tornar um acerto de contas com o presente de Wanda.

A fotografia em preto e branco, capturada em uma rara proporção de tela de 4:3, não é um mero filtro estético, mas um dispositivo narrativo fundamental. As composições de Paweł Pawlikowski e do diretor de fotografia Łukasz Żal frequentemente posicionam os personagens nos terços inferiores do quadro, oprimidos por tetos, paredes vazias ou um vasto céu cinzento. Essa escolha visual cria uma sensação de aprisionamento, tanto físico quanto existencial. Ida é confrontada com o que a filosofia poderia chamar de sua facticidade: um conjunto de fatos sobre seu nascimento e sua herança que ela não escolheu, mas que agora definem o campo de suas possibilidades. Sua jornada não é apenas sobre descobrir quem ela era, mas sobre decidir quem ela será. A estética austera do filme, com seus enquadramentos estáticos e sua recusa em mover a câmera para seguir a ação, força o espectador a observar, a sentir a densidade do tempo e a gravidade das escolhas. ‘Ida’ é um trabalho de imensa elegância formal, uma meditação sobre fé, memória e os caminhos que se abrem quando os pilares da identidade são irrevogavelmente removidos.

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