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Filme: “À Queima-Roupa” (1967), John Boorman

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Numa Alcatraz já desativada, um homem chamado Walker é traído duplamente: pela esposa e pelo cúmplice, Mal Reese, após um roubo. Baleado e deixado para morrer numa cela vazia, ele se torna pouco mais que uma memória fantasmagórica. Mas Walker, interpretado com uma economia de movimentos e palavras por Lee Marvin, retorna. Seu objetivo não é complexo nem multifacetado; é um número, uma obsessão: noventa e três mil dólares. A sua parte no assalto. Ele emerge em uma Los Angeles e São Francisco de arquitetura modernista e fria, um espectro de um tempo anterior navegando um presente corporativo e impessoal para reaver o que é seu.

A sua busca não é uma explosão caótica de violência, mas uma ascensão metódica e implacável pela estrutura de uma entidade criminosa anônima, simplesmente chamada “A Organização”. Cada confronto o leva a um novo degrau, a um executivo de terno mais caro e mais distante da origem do seu problema. Neste percurso, ele reencontra sua ex-cunhada, Chris, uma figura tão deslocada e ambígua quanto ele, que se torna uma aliada relutante e um eco das relações fraturadas que o definem. A jornada de Walker não é sobre desvendar uma conspiração, mas sobre impor uma lógica pessoal e concreta — o pagamento de uma dívida — a um sistema abstrato e desumano que opera com uma lógica própria, onde pessoas e dinheiro são meros ativos.

John Boorman desmonta a linearidade narrativa com uma precisão cirúrgica. O filme avança e recua no tempo, sobrepondo memórias, sonhos e a crua realidade de tal forma que a experiência subjetiva de Walker se torna a do próprio espectador. Cenas se repetem com pequenas variações, sons ecoam fora de sincronia, criando uma experiência que questiona a própria percepção da realidade dos eventos. Estaria Walker realmente vivo ou tudo não passa do último delírio de um homem moribundo em uma cela de Alcatraz? Essa abordagem, quase fenomenológica, transforma um thriller de vingança em um estudo sobre memória e existência. Walker não é tanto um personagem, mas um conceito ambulante de retribuição, uma força da natureza contra um inimigo que mal possui um rosto.

Ao final, À Queima-Roupa funciona como uma autópsia da masculinidade tradicional confrontada pela frieza anônima do mundo corporativo, onde a brutalidade física de outrora é substituída pela violência sistêmica e burocrática. É uma obra fundamental do cinema da Nova Hollywood, cuja influência se estende por décadas em filmes que exploram a alienação e a identidade fragmentada. O filme de Boorman permanece como um thriller existencial, uma peça de cinema cuja arquitetura fria e desorientadora é tão inesquecível quanto o olhar impassível de Lee Marvin.

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Numa Alcatraz já desativada, um homem chamado Walker é traído duplamente: pela esposa e pelo cúmplice, Mal Reese, após um roubo. Baleado e deixado para morrer numa cela vazia, ele se torna pouco mais que uma memória fantasmagórica. Mas Walker, interpretado com uma economia de movimentos e palavras por Lee Marvin, retorna. Seu objetivo não é complexo nem multifacetado; é um número, uma obsessão: noventa e três mil dólares. A sua parte no assalto. Ele emerge em uma Los Angeles e São Francisco de arquitetura modernista e fria, um espectro de um tempo anterior navegando um presente corporativo e impessoal para reaver o que é seu.

A sua busca não é uma explosão caótica de violência, mas uma ascensão metódica e implacável pela estrutura de uma entidade criminosa anônima, simplesmente chamada “A Organização”. Cada confronto o leva a um novo degrau, a um executivo de terno mais caro e mais distante da origem do seu problema. Neste percurso, ele reencontra sua ex-cunhada, Chris, uma figura tão deslocada e ambígua quanto ele, que se torna uma aliada relutante e um eco das relações fraturadas que o definem. A jornada de Walker não é sobre desvendar uma conspiração, mas sobre impor uma lógica pessoal e concreta — o pagamento de uma dívida — a um sistema abstrato e desumano que opera com uma lógica própria, onde pessoas e dinheiro são meros ativos.

John Boorman desmonta a linearidade narrativa com uma precisão cirúrgica. O filme avança e recua no tempo, sobrepondo memórias, sonhos e a crua realidade de tal forma que a experiência subjetiva de Walker se torna a do próprio espectador. Cenas se repetem com pequenas variações, sons ecoam fora de sincronia, criando uma experiência que questiona a própria percepção da realidade dos eventos. Estaria Walker realmente vivo ou tudo não passa do último delírio de um homem moribundo em uma cela de Alcatraz? Essa abordagem, quase fenomenológica, transforma um thriller de vingança em um estudo sobre memória e existência. Walker não é tanto um personagem, mas um conceito ambulante de retribuição, uma força da natureza contra um inimigo que mal possui um rosto.

Ao final, À Queima-Roupa funciona como uma autópsia da masculinidade tradicional confrontada pela frieza anônima do mundo corporativo, onde a brutalidade física de outrora é substituída pela violência sistêmica e burocrática. É uma obra fundamental do cinema da Nova Hollywood, cuja influência se estende por décadas em filmes que exploram a alienação e a identidade fragmentada. O filme de Boorman permanece como um thriller existencial, uma peça de cinema cuja arquitetura fria e desorientadora é tão inesquecível quanto o olhar impassível de Lee Marvin.

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