Como seres milenares e noturnos navegam pelo peculiar cenário da vida de colega de quarto contemporânea, das reuniões do conselho municipal e das noites de sexta-feira? “O Que Fazemos nas Sombras”, concebido por Taika Waititi e Jemaine Clement, oferece uma janela para o cotidiano imortal de Viago, Deacon, Vladislav e Petyr, um quarteto de vampiros que compartilha uma casa vitoriana decrépita na capital da Nova Zelândia. A premissa, habilmente executada no formato de falso documentário, revela a rotina de criaturas que, em teoria, deveriam inspirar terror, mas que se veem mais preocupadas em dividir tarefas domésticas, organizar festas e evitar atritos com os lobisomens que, por acaso, também residem na vizinhança.
A chegada inesperada de Nick, um jovem transformado que ainda luta para compreender sua nova condição vampírica, e seu amigo humano, Stu, um programador com uma capacidade quase perturbadora de aceitação, perturba o delicado equilíbrio doméstico. A dinâmica entre as personalidades divergentes – o dândi romântico, o rebelde sarcástico, o sedutor frustrado e o ancião recluso – impulsiona a narrativa, expondo as complexidades da convivência, seja ela imortal ou não. O humor brota precisamente da justaposição de suas naturezas arcaicas e suas aspirações por uma vida social, esbarrando nas trivialidades do século XXI.
A obra astutamente subverte as expectativas do gênero de horror, deslocando o foco da grandiosidade gótica para a banalidade do lar compartilhado. Existe uma reflexão inerente sobre a natureza da imortalidade: não como uma bênção que permite a acumulação infinita de sabedoria ou poder, mas como uma condenação a uma existência repetitiva, onde até mesmo a caça por alimento se torna uma tarefa rotineira. Essa perspectiva evoca uma sutil exploração da absurdidade da condição eterna, onde a ausência de um fim impõe uma série infindável de “agoras”, desprovidos de um propósito transcendente além da mera subsistência e da manutenção de uma fachada de normalidade perante o mundo mortal. O riso surge dessa disjunção, da incapacidade desses seres milenares de transcender as idiossincrasias humanas.
A perspicácia do filme reside na sua capacidade de humanizar o monstro, ou talvez de “monstrificar” o humano, ao demonstrar que, independentemente da idade ou da dieta de sangue, as disputas por espaço na geladeira e as desavenças domésticas persistem. É um exercício de humor observacional agudo, que usa o sobrenatural como pano de fundo para comentar sobre as particularidades da vida em comunidade e a eterna busca por um lugar no mundo, mesmo quando se tem todo o tempo do mundo.









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