Em uma rua aparentemente pacata de classe média em Recife, onde apartamentos se amontoam e a vida urbana segue seu ritmo peculiar, desenrola-se uma observação perspicaz sobre as fissuras invisíveis que permeiam o tecido social brasileiro. ‘O Som ao Redor’, do diretor Kleber Mendonça Filho, imerge o espectador no cotidiano dessa vizinhança, onde pequenos incômodos e barulhos incessantes são a trilha sonora de uma rotina aparentemente inofensiva. A chegada de uma empresa de segurança privada, oferecendo seus serviços de patrulha noturna e diurna, inicialmente promete uma solução para as preocupações crescentes dos moradores com a criminalidade. No entanto, essa nova camada de proteção logo começa a desvelar uma série de tensões latentes, redefinindo as relações interpessoais e a própria percepção de segurança na comunidade.
O filme examina com acuidade as microdinâmicas entre os proprietários de imóveis, seus inquilinos e funcionários, revelando a complexidade das interações sociais e as linhas tênues que separam o conforto da inquietude. A câmera de Mendonça Filho passeia pelos detalhes arquitetônicos e sonoros da cidade, transformando o espaço urbano em um personagem pulsante, cujas paredes e vielas parecem guardar ecos de um passado não resolvido. A narrativa tece, de forma sutil, conexões com a história agrária da região, sugerindo que as atuais estratificações e inquietações sociais possuem raízes profundas, oriundas de estruturas de poder e posse estabelecidas há séculos. A tranquilidade aparente se revela uma frágil construção, constantemente ameaçada por memórias e realidades que se manifestam de formas inesperadas.
A obra não se detém em simplificações, preferindo explorar a ambivalência da vida moderna. Cada personagem, com suas particularidades e anseios, contribui para um panorama multifacetado da urbanidade contemporânea, onde o ruído constante e a sensação de vulnerabilidade coexistem com a busca por um simulacro de paz. ‘O Som ao Redor’ é uma meditação sobre a natureza da propriedade e da coexistência em um ambiente onde a memória coletiva e o presente se entrelaçam de maneiras complexas, sugerindo que a busca por ordem pode, paradoxalmente, catalisar uma perturbação ainda maior. A ausência de respostas fáceis é um traço marcante, convidando a uma reflexão sobre as camadas de privilégio e apreensão que moldam a experiência humana em metrópoles em constante transformação.









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