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Filme: “Sweet Movie” (1974), Dušan Makavejev

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A premissa de ‘Sweet Movie’, o controverso filme de 1974 do cineasta iugoslavo Dušan Makavejev, desdobra-se em duas narrativas paralelas que operam como uma investida anárquica contra as utopias falidas do século XX. De um lado, acompanhamos a trajetória de Miss Monde 1984, uma virgem canadiana interpretada por Carole Laure, que vence um concurso cujo grande prémio é o casamento com o homem mais rico do mundo. A sua lua de mel é um desastre de humilhação e disfunção, culminando com ela a ser enviada dentro de uma mala para Paris. Na capital francesa, a sua odisseia continua por entre os braços de um cantor latino e a sua eventual integração numa comuna terapêutica que pratica a libertação através da regressão infantil e da exploração de fluidos corporais.

Em simultâneo, Makavejev apresenta-nos a história de Anna Planeta, capitã de um barco chamado ‘Survival’ que navega pelos canais de Amesterdão. A embarcação é inconfundível, adornada com uma gigantesca cabeça de Karl Marx na proa. Anna atrai homens para o seu barco, seduzindo-os com uma doçura literal, rodeando-os de açúcar, doces e chocolate, antes de os assassinar. A sua rota é um rasto de promessas doces e mortes pegajosas, uma alegoria mordaz sobre a sedução e o perigo inerente a uma ideologia que prometeu o paraíso aos trabalhadores e, em muitas das suas manifestações, entregou o controlo absoluto.

O que Makavejev constrói não é uma simples comparação entre os excessos do capitalismo e os fracassos do comunismo. O filme é uma análise visceral de como os grandes sistemas políticos e económicos se inscrevem diretamente nos corpos dos indivíduos, moldando os seus desejos, repressões e patologias. A busca da Miss Mundo por pureza e amor no Ocidente resulta numa mercantilização do seu corpo, enquanto a revolução de Anna Planeta no seu barco comunista é um ciclo de sedução e aniquilação. Em ambos os casos, a prometida libertação, seja ela sexual ou política, revela-se uma armadilha. Esta ideia é brutalmente ancorada na realidade quando Makavejev intercala a sua ficção surreal com imagens documentais da exumação das vítimas do massacre da floresta de Katyn, um lembrete austero da violência real que sustenta as fantasias ideológicas.

Assim, ‘Sweet Movie’ funciona como uma peça de iconoclastia cinematográfica, utilizando o grotesco, o erótico e o humor negro para desmantelar as narrativas de salvação oferecidas pelo Ocidente e pelo Leste. Não se trata de uma simples provocação; é um diagnóstico corrosivo, executado com uma energia caótica e uma inteligência afiada. A obra de Makavejev permanece um documento singular sobre os impulsos humanos em colisão com as estruturas de poder, um banquete agridoce de imagens inesquecíveis que examina a política através das suas manifestações mais íntimas e corporais.

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A premissa de ‘Sweet Movie’, o controverso filme de 1974 do cineasta iugoslavo Dušan Makavejev, desdobra-se em duas narrativas paralelas que operam como uma investida anárquica contra as utopias falidas do século XX. De um lado, acompanhamos a trajetória de Miss Monde 1984, uma virgem canadiana interpretada por Carole Laure, que vence um concurso cujo grande prémio é o casamento com o homem mais rico do mundo. A sua lua de mel é um desastre de humilhação e disfunção, culminando com ela a ser enviada dentro de uma mala para Paris. Na capital francesa, a sua odisseia continua por entre os braços de um cantor latino e a sua eventual integração numa comuna terapêutica que pratica a libertação através da regressão infantil e da exploração de fluidos corporais.

Em simultâneo, Makavejev apresenta-nos a história de Anna Planeta, capitã de um barco chamado ‘Survival’ que navega pelos canais de Amesterdão. A embarcação é inconfundível, adornada com uma gigantesca cabeça de Karl Marx na proa. Anna atrai homens para o seu barco, seduzindo-os com uma doçura literal, rodeando-os de açúcar, doces e chocolate, antes de os assassinar. A sua rota é um rasto de promessas doces e mortes pegajosas, uma alegoria mordaz sobre a sedução e o perigo inerente a uma ideologia que prometeu o paraíso aos trabalhadores e, em muitas das suas manifestações, entregou o controlo absoluto.

O que Makavejev constrói não é uma simples comparação entre os excessos do capitalismo e os fracassos do comunismo. O filme é uma análise visceral de como os grandes sistemas políticos e económicos se inscrevem diretamente nos corpos dos indivíduos, moldando os seus desejos, repressões e patologias. A busca da Miss Mundo por pureza e amor no Ocidente resulta numa mercantilização do seu corpo, enquanto a revolução de Anna Planeta no seu barco comunista é um ciclo de sedução e aniquilação. Em ambos os casos, a prometida libertação, seja ela sexual ou política, revela-se uma armadilha. Esta ideia é brutalmente ancorada na realidade quando Makavejev intercala a sua ficção surreal com imagens documentais da exumação das vítimas do massacre da floresta de Katyn, um lembrete austero da violência real que sustenta as fantasias ideológicas.

Assim, ‘Sweet Movie’ funciona como uma peça de iconoclastia cinematográfica, utilizando o grotesco, o erótico e o humor negro para desmantelar as narrativas de salvação oferecidas pelo Ocidente e pelo Leste. Não se trata de uma simples provocação; é um diagnóstico corrosivo, executado com uma energia caótica e uma inteligência afiada. A obra de Makavejev permanece um documento singular sobre os impulsos humanos em colisão com as estruturas de poder, um banquete agridoce de imagens inesquecíveis que examina a política através das suas manifestações mais íntimas e corporais.

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