Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “O Reino” (1994), Lars von Trier, Morten Arnfred

Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Sobre os antigos pântanos de Copenhaga ergue-se o Rigshospitalet, uma fortaleza da medicina moderna apelidada de ‘O Reino’. É neste colosso da ciência e da tecnologia que a série de Lars von Trier e Morten Arnfred estabelece o seu palco. A premissa inicial acompanha duas figuras centrais em rotas de colisão: de um lado, a hipocondríaca e médium amadora Sigrid Drusse, que se interna para investigar o choro fantasmagórico de uma menina nos poços dos elevadores; do outro, a personificação da arrogância científica, Stig Helmer, um neurocirurgião sueco transferido que nutre um desprezo visceral por tudo o que é dinamarquês, desde os procedimentos operatórios até à própria fundação do edifício. Ao redor deles, um ecossistema de personagens disfuncionais orbita, incluindo um patologista que transplanta para si mesmo um fígado canceroso por curiosidade científica e uma neurocirurgiã cuja gravidez avança a uma velocidade alarmante, resultando numa criatura visivelmente desproporcional.

A narrativa não se limita a uma única linha de acontecimentos, desdobrando-se numa série de vinhetas que misturam o drama médico com o horror sobrenatural e a comédia de humor negro mais cáustica. A estética visual, marcada por uma paleta de cores sépia e uma câmara na mão instável, cria uma atmosfera de desconforto e voyeurismo, como se o espectador estivesse a espiar por uma fechadura para um universo em desintegração. As sequências são pontuadas pelos comentários de dois funcionários da copa com síndrome de Down, que funcionam como um coro grego, oferecendo observações lúcidas e enigmáticas sobre o caos que os rodeia. O hospital, com a sua burocracia sufocante e rituais internos de uma sociedade secreta de médicos, torna-se um organismo vivo e doente, onde o inexplicável floresce nas fissuras da lógica.

Mais do que uma simples história de fantasmas, a obra funciona como uma análise da soberba humana perante o desconhecido e uma sátira mordaz às instituições. O conflito entre ciência e espiritualidade é o motor central, mas é a sua manifestação no quotidiano que lhe confere um caráter único. A obra explora uma espécie de hauntologia institucional, onde os pecados e os espectros do passado não são memórias passivas, mas agentes ativos que corroem a fachada de racionalidade do presente. O som da ambulância fantasma que chega todas as noites ou o espírito de uma antiga paciente que busca justiça são sintomas de uma doença mais profunda que afeta a própria alma do ‘Reino’. A arrogância de Helmer e a fé cega de Drusse são apenas duas faces de uma mesma moeda, duas tentativas humanas de impor ordem a um cosmos fundamentalmente indiferente e bizarro.

Lançada originalmente como uma minissérie para a televisão dinamarquesa, a produção estabeleceu um padrão para a ficção televisiva que viria a seguir, fundindo géneros de forma audaciosa e construindo um mundo denso e autossuficiente. Cada episódio encerra com o próprio Lars von Trier a dirigir-se à audiência, oferecendo um resumo críptico dos eventos e preparando o terreno para o que se segue, um gesto que quebra a quarta parede e sublinha a natureza autoral do projeto. ‘O Reino’ apresenta um universo onde a normalidade é uma ilusão frágil e o absurdo é a única constante, um diagnóstico clínico da modernidade que permanece incisivo e perturbador.

Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Sobre os antigos pântanos de Copenhaga ergue-se o Rigshospitalet, uma fortaleza da medicina moderna apelidada de ‘O Reino’. É neste colosso da ciência e da tecnologia que a série de Lars von Trier e Morten Arnfred estabelece o seu palco. A premissa inicial acompanha duas figuras centrais em rotas de colisão: de um lado, a hipocondríaca e médium amadora Sigrid Drusse, que se interna para investigar o choro fantasmagórico de uma menina nos poços dos elevadores; do outro, a personificação da arrogância científica, Stig Helmer, um neurocirurgião sueco transferido que nutre um desprezo visceral por tudo o que é dinamarquês, desde os procedimentos operatórios até à própria fundação do edifício. Ao redor deles, um ecossistema de personagens disfuncionais orbita, incluindo um patologista que transplanta para si mesmo um fígado canceroso por curiosidade científica e uma neurocirurgiã cuja gravidez avança a uma velocidade alarmante, resultando numa criatura visivelmente desproporcional.

A narrativa não se limita a uma única linha de acontecimentos, desdobrando-se numa série de vinhetas que misturam o drama médico com o horror sobrenatural e a comédia de humor negro mais cáustica. A estética visual, marcada por uma paleta de cores sépia e uma câmara na mão instável, cria uma atmosfera de desconforto e voyeurismo, como se o espectador estivesse a espiar por uma fechadura para um universo em desintegração. As sequências são pontuadas pelos comentários de dois funcionários da copa com síndrome de Down, que funcionam como um coro grego, oferecendo observações lúcidas e enigmáticas sobre o caos que os rodeia. O hospital, com a sua burocracia sufocante e rituais internos de uma sociedade secreta de médicos, torna-se um organismo vivo e doente, onde o inexplicável floresce nas fissuras da lógica.

Mais do que uma simples história de fantasmas, a obra funciona como uma análise da soberba humana perante o desconhecido e uma sátira mordaz às instituições. O conflito entre ciência e espiritualidade é o motor central, mas é a sua manifestação no quotidiano que lhe confere um caráter único. A obra explora uma espécie de hauntologia institucional, onde os pecados e os espectros do passado não são memórias passivas, mas agentes ativos que corroem a fachada de racionalidade do presente. O som da ambulância fantasma que chega todas as noites ou o espírito de uma antiga paciente que busca justiça são sintomas de uma doença mais profunda que afeta a própria alma do ‘Reino’. A arrogância de Helmer e a fé cega de Drusse são apenas duas faces de uma mesma moeda, duas tentativas humanas de impor ordem a um cosmos fundamentalmente indiferente e bizarro.

Lançada originalmente como uma minissérie para a televisão dinamarquesa, a produção estabeleceu um padrão para a ficção televisiva que viria a seguir, fundindo géneros de forma audaciosa e construindo um mundo denso e autossuficiente. Cada episódio encerra com o próprio Lars von Trier a dirigir-se à audiência, oferecendo um resumo críptico dos eventos e preparando o terreno para o que se segue, um gesto que quebra a quarta parede e sublinha a natureza autoral do projeto. ‘O Reino’ apresenta um universo onde a normalidade é uma ilusão frágil e o absurdo é a única constante, um diagnóstico clínico da modernidade que permanece incisivo e perturbador.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo