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Filme: “Certo Agora, Errado Antes” (2015), Hong Sang-soo

Num dia aparentemente banal em Suwon, o realizador de cinema Ham Chun-su chega à cidade um dia antes do previsto para uma palestra. Com tempo livre, ele visita um palácio restaurado e encontra Yoon Hee-jung, uma jovem e promissora pintora. O que se segue é um dia de encontros e conversas que parecem banais na…


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Num dia aparentemente banal em Suwon, o realizador de cinema Ham Chun-su chega à cidade um dia antes do previsto para uma palestra. Com tempo livre, ele visita um palácio restaurado e encontra Yoon Hee-jung, uma jovem e promissora pintora. O que se segue é um dia de encontros e conversas que parecem banais na superfície: visitam o estúdio dela, comem sushi, bebem soju com os amigos dela. A atração é mútua e palpável, construída sobre elogios à arte dela e uma curiosidade crescente sobre a vida dele. A interação, no entanto, culmina numa revelação desajeitada e numa despedida melancólica, deixando um rasto de potencial perdido e comunicação falhada.

A narrativa então, de forma surpreendente, regressa ao exato ponto de partida. O mesmo realizador encontra a mesma pintora no mesmo palácio. O filme reinicia, mas não repete. Nesta segunda versão do dia, as mesmas situações ocorrem, mas as palavras e reações são sutilmente, e por vezes drasticamente, diferentes. A honestidade de Chun-su torna-se mais crua e imediata, seus elogios menos polidos, suas confissões mais diretas. A dinâmica entre os dois se altera por completo. A forma como ele avalia a pintura dela, o tom da conversa no jantar, a sua interação com os amigos dela, tudo ganha uma nova camada, produzindo um resultado emocionalmente distinto. O que era constrangimento na primeira parte pode transformar-se em confronto ou numa forma peculiar de intimidade na segunda.

O que Hong Sang-soo constrói com essa estrutura dual não é um mero quebra-cabeça formal. É uma análise meticulosa das pequenas contingências que definem as relações humanas. A obra funciona como um campo de testes para a honestidade e a performance social, questionando se uma verdade brutal é preferível a uma mentira cortês, ou se ambas as vias levam a diferentes, mas igualmente intransponíveis, becos sem saída. Flertando com uma variação do conceito de eterno retorno, o filme examina não a repetição de um destino, mas as infinitas possibilidades contidas num único dia, dependendo das escolhas de diálogo e da coragem ou do descuido de cada indivíduo. A precisão dos diálogos e a naturalidade das atuações de Jung Jae-young e Kim Min-hee transformam conversas regadas a álcool em dissecações da vulnerabilidade.

O estilo característico de Hong, com seus longos planos fixos e zooms abruptos que redirecionam a atenção do espectador, serve para sublinhar a crueza dos momentos. Não há trilha sonora para manipular emoções, apenas o som ambiente e o fluxo das palavras. A obra documenta como a verdade, dita no momento certo ou no momento errado, pode redefinir por completo a textura de uma memória. Cada versão da história ilumina as falhas e os desejos da outra, mostrando como duas pessoas podem estar simultaneamente certas e erradas na sua tentativa de se conectar.


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