Numa decisão que é tanto de pânico como patética, o pintor Kim Sung-nam foge de Seul para Paris. O seu crime? Fumar um charro com uns turistas. Agora, assombrado pela perspetiva de uma detenção que provavelmente nunca acontecerá, ele mergulha num exílio autoimposto na capital francesa. Paris, contudo, surge não como a cidade da luz, mas como um labirinto de solidão e desejo adiado, filmado com a calma observacional característica de Hong Sang-soo. As suas únicas âncoras são as chamadas diárias, repletas de culpa, para a esposa que deixou para trás em Seul, conversas que servem tanto de penitência como de lembrete do que ele abandonou.
É neste limbo que ele conhece Yoo-jung, uma jovem e introspectiva estudante de arte que, tal como ele, navega a sua própria versão de deslocamento. A sua relação floresce e tropeça através de conversas sobre arte, passeios sem rumo por bairros parisienses anónimos e confissões alimentadas a soju, tecendo um romance hesitante que espelha a própria indecisão do protagonista. Sung-nam não é um herói romântico, mas um estudo fascinante da fragilidade masculina, um homem que intelectualiza as suas emoções para justificar os seus impulsos mais básicos.
Hong Sang-soo explora com a sua habitual mestria a fratura entre a noite – a promessa de uma nova vida, a liberdade do anonimato parisiense – e o dia – a realidade inescapável das suas responsabilidades e da sua própria natureza falível. Através de longos takes, diálogos circulares e um humor subtil que brota do desconforto, o filme desmonta as fantasias de fuga. Noite e Dia é um diário de exílio agridoce, uma comédia melancólica sobre um homem que viaja meio mundo apenas para se encontrar, de forma inescapável, consigo mesmo.
“Noite e Dia” está disponível no MUBI.









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