‘Dellamorte Dellamore’, conhecido internacionalmente como ‘Cemetery Man’, é uma peculiar incursão de Michele Soavi no horror existencialista, com um toque de comédia macabra. Rupert Everett personifica Francesco Dellamorte, o zelador de um cemitério isolado numa pequena cidade italiana. A sua rotina, que já seria soturna, é interrompida por um fenômeno inusitado: os mortos ressuscitam com apetites vorazes, e Dellamorte, com a ajuda do seu fiel assistente Gnaghi (um sujeito com limitações de fala e intelecto), é forçado a abatê-los, numa repetição ad nauseam que questiona a própria sanidade.
A narrativa tece uma teia de eventos bizarros e situações absurdas, onde a morte é banalizada e a vida se torna uma busca constante por sentido. Dellamorte apaixona-se obsessivamente por uma jovem viúva (Anna Falchi), mas a relação é interrompida tragicamente, e a partir daí, a busca por um substituto amoroso torna-se uma espiral de encontros frustrados e desilusões. O cemitério, espaço liminar entre a vida e a morte, funciona como uma metáfora para o próprio estado mental de Dellamorte, preso num ciclo de repetição e incapaz de escapar do seu destino.
Soavi, com uma direção estilizada e um visual exuberante, utiliza cores saturadas e enquadramentos incomuns para criar uma atmosfera onírica e perturbadora. A trilha sonora, ora melancólica, ora grotesca, intensifica a sensação de estranhamento e desespero. ‘Cemetery Man’ não se limita a ser um filme de zumbis; é uma reflexão sobre a solidão, a incomunicabilidade e a busca por significado num mundo absurdo. A obra flerta com o niilismo, mas encontra redenção na própria beleza do caos e na aceitação da inevitabilidade da morte, não como um fim, mas como parte integrante da experiência humana. Um conto gótico moderno, com um humor peculiar, que permanece na mente muito tempo depois dos créditos finais.




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