Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Yeelen – A Luz” (1987), Souleymane Cissé

Em meio à vastidão da paisagem do Mali, onde a poeira ocre do Sahel parece carregar o peso de séculos, se desenrola a jornada de Nianankoro. Ele é um jovem destinado a dominar os segredos da sociedade Komo, um círculo de conhecimento e poder que governa os elementos e o destino. Contudo, seu próprio pai,…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em meio à vastidão da paisagem do Mali, onde a poeira ocre do Sahel parece carregar o peso de séculos, se desenrola a jornada de Nianankoro. Ele é um jovem destinado a dominar os segredos da sociedade Komo, um círculo de conhecimento e poder que governa os elementos e o destino. Contudo, seu próprio pai, Soma, um mestre da mesma confraria, o persegue com uma fúria implacável. O motivo da caçada não é uma simples disputa familiar, mas o medo de que o filho, detentor de um poder que o ancião não compreende, venha a usurpar e anular sua autoridade sobre os ritos sagrados. A jornada de Nianankoro é, portanto, uma fuga para frente, um percurso iniciático através das terras dos povos Bambara, Fulani e Dogon em busca da luz, do conhecimento que lhe permitirá confrontar a escuridão que o persegue.

A narrativa de Souleymane Cissé em ‘Yeelen – A Luz’ se afasta das estruturas dramáticas convencionais para operar no campo do mito. Cada etapa da viagem de Nianankoro é um rito de passagem, onde ele acumula sabedoria e artefatos de poder, como a enigmática ‘asa de Kore’, um totem que o guiará em sua busca. O filme constrói sua tensão não através de diálogos expositivos, mas pela força de suas imagens e pela atmosfera palpável de um mundo onde o mágico e o real são indissociáveis. A relação de Nianankoro com sua mãe, que o auxilia com sua própria magia protetora, e seu encontro com um rei Fulani, que lhe oferece sua esposa como forma de purificação e aliança, são momentos que aprofundam a natureza cíclica e ritualística da história.

O conflito central entre pai e filho opera quase como uma dialética mítica, onde a tese do poder estabelecido e conservador de Soma é confrontada pela antítese do potencial transformador e luminoso de Nianankoro. Cissé filma essa colisão não como uma tragédia grega, mas como um processo cósmico inevitável. A magia aqui não é um efeito especial; é uma ciência ancestral, tratada com uma seriedade documental que confere ao filme uma autoridade rara. É uma obra que apresenta uma cosmologia africana de dentro para fora, sem a necessidade de tradução ou simplificação para o olhar ocidental, explorando a transmissão e a corrupção do conhecimento entre gerações.

O clímax é uma colisão de forças primordiais, uma explosão ofuscante de luz que dissolve os antagonistas e redefine a paisagem, deixando para trás apenas dois ovos, símbolos de um novo começo. ‘Yeelen’ se firma como um marco do cinema africano e mundial por sua ambição de contar uma história universal de legado e poder através de uma linguagem visual e espiritual profundamente particular. É um cinema que não explica, mas revela, utilizando a luz não apenas como elemento fotográfico, mas como a própria matéria da qual o conhecimento e o futuro são forjados. A experiência é a de testemunhar um épico oral transposto para a tela com uma pureza e uma potência visual que permanecem singulares.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading