Em um bairro de Teerã, uma denúncia de vizinhos leva os serviços sociais a uma descoberta desconcertante: duas irmãs gêmeas de doze anos, Massoumeh e Zahra, passaram a vida inteira trancadas em casa pelos pais. O pai, um homem pobre e fervorosamente religioso, e a mãe, cega, justificam o ato como uma forma de proteger as filhas das corrupções do mundo exterior. Essa premissa, baseada em um caso real que chocou o Irã, é o ponto de partida de ‘A Maçã’, o primeiro longa-metragem de Samira Makhmalbaf. O filme documenta o que acontece a seguir, quando a porta da casa é finalmente aberta.
A singularidade da obra de Samira Makhmalbaf, então com apenas dezessete anos, reside na sua premissa radical: o filme não dramatiza o evento com atores, mas o reconstitui com os próprios protagonistas da história real. O pai, a mãe e as duas meninas interpretam a si mesmos, dias após a intervenção estatal que os tornou notícia. Essa escolha metodológica remove qualquer distância segura para o espectador e transforma o filme em um experimento social filmado. A câmera não está apenas recontando uma história, ela está participando da reabilitação das meninas, observando em tempo real sua primeira interação com a rua, com outras crianças, com a própria ideia de liberdade.
A narrativa se desdobra como uma variação moderna da Alegoria da Caverna de Platão. As meninas, libertadas do seu confinamento doméstico, não emergem para um mundo de alegria imediata, mas para uma realidade avassaladora e indecifrável. Elas não sabem falar corretamente, andam com dificuldade e sua comunicação é quase animalizada. A maçã do título, oferecida por um garoto da vizinhança através das grades, funciona como o catalisador simbólico: o fruto do conhecimento, a tentação do mundo lá fora, um objeto simples que para elas representa um universo de possibilidades. O filme observa com paciência e sem julgamentos a colisão entre a lógica patriarcal e protetora do pai e a intervenção de uma burocracia estatal que busca a reintegração.
Makhmalbaf emprega uma câmera que observa mais do que encena, capturando a estranheza e a beleza crua dos primeiros contatos das meninas com o mundo exterior, como a fascinação por um relógio ou a dificuldade em descer uma escada. Ao colocar o pai para justificar suas ações diretamente para a lente, o filme examina as complexas motivações por trás de um ato de crueldade aparente, revelando uma intersecção de pobreza, fé e medo. O resultado é um documento cinematográfico que opera em um território ético complexo, um dos exemplos mais potentes da docuficção iraniana, que investiga as fronteiras entre a realidade e sua representação.









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