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Filme: “O Funeral” (1996), Abel Ferrara

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Um caixão aberto no centro de uma sala suntuosa, mas fria, contém o corpo de Johnny Tempio, o mais novo de três irmãos de uma família do crime na Nova Iorque dos anos 30. O velório, que dá nome ao filme de Abel Ferrara, O Funeral, serve menos como um ritual de passagem e mais como uma câmara de pressão. Em torno do corpo, os irmãos sobreviventes, Ray e Chez, iniciam um perigoso balé de luto e retribuição. A narrativa se desdobra a partir deste ponto de estase, mergulhando em flashbacks que não apenas contextualizam o assassinato de Johnny, mas dissecam a anatomia de uma família em rota de colisão com o seu próprio legado. Ferrara utiliza a estrutura fragmentada não como um artifício, mas como a única forma de examinar as feridas que levaram a este momento.

O que se revela é um estudo de personagens denso e implacável. Ray, interpretado por um Christopher Walken magnético em sua quietude, é o cérebro da família, um homem cuja dor se manifesta como uma equação fria em busca de uma solução violenta. Em contraponto, Chez, vivido por um visceral Chris Penn, é pura impulsividade, um homem afogado em remorso e uma raiva que corrói a si mesmo antes de atingir qualquer alvo externo. Os flashbacks revelam Johnny, papel de Vincent Gallo, não como uma simples vítima, mas como uma anomalia ideológica dentro do clã: um jovem com inclinações comunistas que tentava se afastar da lógica predatória da família. A presença das esposas, interpretadas por Annabella Sciorra e Isabella Rossellini, ancora o drama, expondo as consequências silenciosas e devastadoras das escolhas dos homens em um universo patriarcal que as consome.

Longe de ser apenas uma crônica sobre a máfia, O Funeral explora uma espécie de determinismo social, onde o código de honra e violência é um mecanismo que se perpetua até a autodestruição. A questão central não é quem matou Johnny, mas como a própria dinâmica familiar tornou sua morte uma inevitabilidade. A atmosfera claustrofóbica do velório, filmada com uma paleta de cores sóbria e uma iluminação que acentua as sombras nos rostos dos personagens, reflete a prisão psicológica em que se encontram. Cada conversa, cada memória revisitada, apenas aperta o nó em torno de seus pescoços, empurrando-os para um desfecho que parece, desde o início, ter sido escrito em pedra.

Ferrara constrói uma tragédia sem catarse, onde a busca por vingança se confunde com um desejo inconsciente de aniquilação. A performance dos atores, especialmente a dupla Walken e Penn, eleva o material a um patamar de realismo brutal e pungente. O clímax do filme é uma das conclusões mais contundentes do cinema americano dos anos 90, um ato final que não oferece fechamento, mas sim a implosão de um ciclo. O Funeral se firma como uma obra madura e austera na filmografia de seu diretor, uma análise cortante sobre a masculinidade tóxica e a impossibilidade de escapar das origens, não importa o quão longe se tente correr.

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Um caixão aberto no centro de uma sala suntuosa, mas fria, contém o corpo de Johnny Tempio, o mais novo de três irmãos de uma família do crime na Nova Iorque dos anos 30. O velório, que dá nome ao filme de Abel Ferrara, O Funeral, serve menos como um ritual de passagem e mais como uma câmara de pressão. Em torno do corpo, os irmãos sobreviventes, Ray e Chez, iniciam um perigoso balé de luto e retribuição. A narrativa se desdobra a partir deste ponto de estase, mergulhando em flashbacks que não apenas contextualizam o assassinato de Johnny, mas dissecam a anatomia de uma família em rota de colisão com o seu próprio legado. Ferrara utiliza a estrutura fragmentada não como um artifício, mas como a única forma de examinar as feridas que levaram a este momento.

O que se revela é um estudo de personagens denso e implacável. Ray, interpretado por um Christopher Walken magnético em sua quietude, é o cérebro da família, um homem cuja dor se manifesta como uma equação fria em busca de uma solução violenta. Em contraponto, Chez, vivido por um visceral Chris Penn, é pura impulsividade, um homem afogado em remorso e uma raiva que corrói a si mesmo antes de atingir qualquer alvo externo. Os flashbacks revelam Johnny, papel de Vincent Gallo, não como uma simples vítima, mas como uma anomalia ideológica dentro do clã: um jovem com inclinações comunistas que tentava se afastar da lógica predatória da família. A presença das esposas, interpretadas por Annabella Sciorra e Isabella Rossellini, ancora o drama, expondo as consequências silenciosas e devastadoras das escolhas dos homens em um universo patriarcal que as consome.

Longe de ser apenas uma crônica sobre a máfia, O Funeral explora uma espécie de determinismo social, onde o código de honra e violência é um mecanismo que se perpetua até a autodestruição. A questão central não é quem matou Johnny, mas como a própria dinâmica familiar tornou sua morte uma inevitabilidade. A atmosfera claustrofóbica do velório, filmada com uma paleta de cores sóbria e uma iluminação que acentua as sombras nos rostos dos personagens, reflete a prisão psicológica em que se encontram. Cada conversa, cada memória revisitada, apenas aperta o nó em torno de seus pescoços, empurrando-os para um desfecho que parece, desde o início, ter sido escrito em pedra.

Ferrara constrói uma tragédia sem catarse, onde a busca por vingança se confunde com um desejo inconsciente de aniquilação. A performance dos atores, especialmente a dupla Walken e Penn, eleva o material a um patamar de realismo brutal e pungente. O clímax do filme é uma das conclusões mais contundentes do cinema americano dos anos 90, um ato final que não oferece fechamento, mas sim a implosão de um ciclo. O Funeral se firma como uma obra madura e austera na filmografia de seu diretor, uma análise cortante sobre a masculinidade tóxica e a impossibilidade de escapar das origens, não importa o quão longe se tente correr.

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