“Os Carabineiros”, de Jean-Luc Godard, transporta o espectador para uma realidade árida, onde dois camponeses ingênuos, Ulisses e Michelangelo, são seduzidos pela promessa de riquezas infindáveis ao se alistarem na guerra. Recrutados por um emissário que lhes garante que tudo no mundo será deles – desde que lutem pelo Rei –, a narrativa acompanha as peripécias desses soldados improvisados em seu trajeto desolador. Longe de qualquer celebração do conflito, a obra desenha um panorama da desilusão, mostrando a guerra não como um campo de glória, mas como um palco de futilidades e aquisições bizarras.
Ao invés de tesouros, o que Ulisses e Michelangelo acumulam são os “espólios” mais prosaicos e, por vezes, absurdos: selos, fotos de paisagens famosas, cartões-postais com monumentos, e até itens íntimos de suas vítimas. As cartas que enviam para casa, lidas em voz alta por Godard, detalham essas conquistas com uma inocência perturbadora, revelando a crueza da mentalidade de guerra e a superficialidade de um ideal de posse que se esvazia na prática. Não há aqui um épico militar tradicional, mas uma desmontagem da propaganda bélica, expondo a trivialidade dos ganhos materiais prometidos em contraste com a perda humana e a brutalidade inerente ao combate.
Godard emprega uma estética deliberadamente distanciada, quase brechtiana, que sublinha a artificialidade da própria representação. A fotografia em preto e branco, a ausência de trilha sonora em momentos cruciais e a frontalidade de algumas cenas criam um efeito alienante, forçando quem assiste a uma reflexão sobre a natureza da guerra e os mecanismos de poder que a alimentam. O filme explora a desvalorização do intangível frente ao impulso de acumular, mesmo que o que se acumulem sejam apenas símbolos vazios. Essa abordagem sugere uma crítica à própria noção de valor intrínseco, questionando o que realmente constitui “riqueza” quando a vida é o preço. A obra é uma meditação fria sobre a guerra como um ciclo de desilusão, onde as grandes promessas se reduzem a pilhas de objetos sem alma, e a humanidade, degradada, busca significado em conquistas meramente simbólicas.









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