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Filme: “Wien retour” (1983), Ruth Beckermann, Josef Aichholzer

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A câmara de Ruth Beckermann e Josef Aichholzer fixa-se em Franz Weintraub, um comunista judeu vienense, enquanto ele, com uma calma que beira o desapego, desenrola o fio da sua própria história. A narrativa de ‘Wien retour’ constrói-se a partir desta conversa, um testemunho que percorre a juventude politicamente febril na “Viena Vermelha” dos anos 20 e 30, o exílio forçado com a ascensão do nazismo, a passagem por uma Palestina ainda sob mandato britânico e, finalmente, o regresso a uma Áustria pós-guerra que se esforça por esquecer. O filme organiza-se em torno deste ato de voltar, não como um desfecho, mas como um novo começo problemático, um reencontro com uma cidade transformada e assombrada por si mesma.

O que eleva a obra para além de um simples documentário biográfico é a sua estrutura dialética. A voz de Weintraub, pragmática e desprovida de autocomiseração, é constantemente justaposta a um extraordinário material de arquivo da época. Não se trata de uma mera ilustração dos seus relatos. Pelo contrário, as imagens de manifestações de massas, de discursos inflamados e da vida quotidiana criam uma dissonância, um diálogo tenso entre a memória individual e o registo histórico coletivo. O filme investiga a lacuna entre a promessa de uma utopia socialista e a sua subsequente implosão. Há uma espécie de assombro pelo futuro que nunca chegou, uma melancolia política que permeia a experiência do retorno. Weintraub não regressa à Viena que deixou, mas a um lugar onde o fantasma daquela cidade idealizada ainda ecoa pelas ruas.

Ao recusar qualquer sentimentalismo, ‘Wien retour’ apresenta um estudo clínico sobre a desilusão. A experiência do antissemitismo, tanto o explícito do regime nazi como o velado na Áustria do pós-guerra, é tratada como um facto da vida, uma condição persistente em vez de um trauma a ser superado. O filme desmonta a ideia de um passado monolítico, revelando as contradições, as lealdades quebradas e as esperanças desfeitas que constituem a memória de um homem e, por extensão, de uma nação. É um retrato de um indivíduo e de uma cidade definidos não por uma trajetória de superação, mas pela persistência complexa da história no tempo presente, um documento sobre a impossibilidade de voltar para casa por completo.

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A câmara de Ruth Beckermann e Josef Aichholzer fixa-se em Franz Weintraub, um comunista judeu vienense, enquanto ele, com uma calma que beira o desapego, desenrola o fio da sua própria história. A narrativa de ‘Wien retour’ constrói-se a partir desta conversa, um testemunho que percorre a juventude politicamente febril na “Viena Vermelha” dos anos 20 e 30, o exílio forçado com a ascensão do nazismo, a passagem por uma Palestina ainda sob mandato britânico e, finalmente, o regresso a uma Áustria pós-guerra que se esforça por esquecer. O filme organiza-se em torno deste ato de voltar, não como um desfecho, mas como um novo começo problemático, um reencontro com uma cidade transformada e assombrada por si mesma.

O que eleva a obra para além de um simples documentário biográfico é a sua estrutura dialética. A voz de Weintraub, pragmática e desprovida de autocomiseração, é constantemente justaposta a um extraordinário material de arquivo da época. Não se trata de uma mera ilustração dos seus relatos. Pelo contrário, as imagens de manifestações de massas, de discursos inflamados e da vida quotidiana criam uma dissonância, um diálogo tenso entre a memória individual e o registo histórico coletivo. O filme investiga a lacuna entre a promessa de uma utopia socialista e a sua subsequente implosão. Há uma espécie de assombro pelo futuro que nunca chegou, uma melancolia política que permeia a experiência do retorno. Weintraub não regressa à Viena que deixou, mas a um lugar onde o fantasma daquela cidade idealizada ainda ecoa pelas ruas.

Ao recusar qualquer sentimentalismo, ‘Wien retour’ apresenta um estudo clínico sobre a desilusão. A experiência do antissemitismo, tanto o explícito do regime nazi como o velado na Áustria do pós-guerra, é tratada como um facto da vida, uma condição persistente em vez de um trauma a ser superado. O filme desmonta a ideia de um passado monolítico, revelando as contradições, as lealdades quebradas e as esperanças desfeitas que constituem a memória de um homem e, por extensão, de uma nação. É um retrato de um indivíduo e de uma cidade definidos não por uma trajetória de superação, mas pela persistência complexa da história no tempo presente, um documento sobre a impossibilidade de voltar para casa por completo.

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