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Filme: “Coração de Folha” (1971), Elaine May

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Henry Graham é um monumento à inutilidade, um homem cuja existência foi tão amortecida por uma fortuna herdada que a própria ideia de trabalho ou esforço lhe é estranha. Sua vida, uma sequência de jantares, clubes e uma ociosidade cultivada com desprezo por tudo que é produtivo, sofre um colapso quando seu advogado lhe informa o impensável: o dinheiro acabou. Diante da perspectiva humilhante de uma vida comum, a solução que ele concebe é tão fria quanto pragmática: encontrar uma mulher rica, casar-se com ela e, em seguida, eliminá-la para herdar sua fortuna. É um plano que combina o desespero de sua nova condição com a arrogância de sua antiga vida.

Seu alvo se materializa na figura de Henrietta Lowell, uma herdeira botânica desastrada, tímida e tão absorta em seu mundo de plantas e pesquisas acadêmicas que mal percebe o mundo ao seu redor. Henrietta é a antítese de seu predador; onde ele é cínico e mundano, ela é genuína e caótica. A comédia de Elaine May, em sua estreia como diretora, emerge não de diálogos afiados, mas do vácuo entre eles, do desconforto físico de Walter Matthau tentando manter sua compostura predatória diante do caos sincero e da completa falta de malícia de May. O plano de Henry, aparentemente simples, começa a se desintegrar não por uma crise de consciência, mas pela pura inviabilidade de executá-lo em meio à desordem que é a vida de Henrietta.

O que se desenrola é uma análise sutil e mordaz sobre dependência e propósito. Henry, que planejava a destruição, se vê compelido a organizar, a proteger e a catalogar a vida e o patrimônio de sua vítima para que seu plano de assassinato possa, ironicamente, ser bem-sucedido. Ao fazer isso, ele encontra uma função pela primeira vez em sua vida. O filme parece explorar, sem alarde, uma noção fundamental da existência: a de que o propósito não é uma meta a ser conquistada, mas uma consequência imprevista das nossas ações, mesmo as mais cínicas. A direção de May é precisa, permitindo que o humor surja da situação e da performance contida de seus atores, que encontram uma química peculiar na colisão de duas solidões opostas.

Coração de Folha opera num espaço raro, uma comédia de humor ácido com uma premissa sombria que lentamente se transforma em uma das mais singulares histórias sobre companheirismo do cinema americano dos anos 70. Não se trata de uma redenção moral convencional, mas de uma adaptação forçada, uma descoberta de que a vida, mesmo quando reorganizada por motivos egoístas, pode gerar um tipo inesperado de afeto e significado. É uma peça singular sobre como duas pessoas totalmente disfuncionais podem, juntas, formar uma unidade estranhamente funcional.

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Henry Graham é um monumento à inutilidade, um homem cuja existência foi tão amortecida por uma fortuna herdada que a própria ideia de trabalho ou esforço lhe é estranha. Sua vida, uma sequência de jantares, clubes e uma ociosidade cultivada com desprezo por tudo que é produtivo, sofre um colapso quando seu advogado lhe informa o impensável: o dinheiro acabou. Diante da perspectiva humilhante de uma vida comum, a solução que ele concebe é tão fria quanto pragmática: encontrar uma mulher rica, casar-se com ela e, em seguida, eliminá-la para herdar sua fortuna. É um plano que combina o desespero de sua nova condição com a arrogância de sua antiga vida.

Seu alvo se materializa na figura de Henrietta Lowell, uma herdeira botânica desastrada, tímida e tão absorta em seu mundo de plantas e pesquisas acadêmicas que mal percebe o mundo ao seu redor. Henrietta é a antítese de seu predador; onde ele é cínico e mundano, ela é genuína e caótica. A comédia de Elaine May, em sua estreia como diretora, emerge não de diálogos afiados, mas do vácuo entre eles, do desconforto físico de Walter Matthau tentando manter sua compostura predatória diante do caos sincero e da completa falta de malícia de May. O plano de Henry, aparentemente simples, começa a se desintegrar não por uma crise de consciência, mas pela pura inviabilidade de executá-lo em meio à desordem que é a vida de Henrietta.

O que se desenrola é uma análise sutil e mordaz sobre dependência e propósito. Henry, que planejava a destruição, se vê compelido a organizar, a proteger e a catalogar a vida e o patrimônio de sua vítima para que seu plano de assassinato possa, ironicamente, ser bem-sucedido. Ao fazer isso, ele encontra uma função pela primeira vez em sua vida. O filme parece explorar, sem alarde, uma noção fundamental da existência: a de que o propósito não é uma meta a ser conquistada, mas uma consequência imprevista das nossas ações, mesmo as mais cínicas. A direção de May é precisa, permitindo que o humor surja da situação e da performance contida de seus atores, que encontram uma química peculiar na colisão de duas solidões opostas.

Coração de Folha opera num espaço raro, uma comédia de humor ácido com uma premissa sombria que lentamente se transforma em uma das mais singulares histórias sobre companheirismo do cinema americano dos anos 70. Não se trata de uma redenção moral convencional, mas de uma adaptação forçada, uma descoberta de que a vida, mesmo quando reorganizada por motivos egoístas, pode gerar um tipo inesperado de afeto e significado. É uma peça singular sobre como duas pessoas totalmente disfuncionais podem, juntas, formar uma unidade estranhamente funcional.

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