Em ‘Os Olhos não Querem Fechar-se a Todo o Momento, ou, Talvez um Dia Roma se Permita Escolher por Sua Vez’, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet transportam a tragédia política ‘Othon’, de Pierre Corneille, para as ruínas do Monte Palatino e do Fórum Romano. A trama, originalmente ambientada em 69 d.C., acompanha a volátil sucessão do Imperador Galba. Othon, um nobre ambicioso, busca o trono e a mão de Plautine, mas se vê enredado numa teia de alianças instáveis com o pai dela, Vinius, e o cônsul Laco, enquanto outro candidato, Pison, emerge como uma opção mais virtuosa. A narrativa desdobra-se através de diálogos densos e calculados, onde cada palavra é uma manobra política e cada casamento proposto é um contrato de poder.
A abordagem de Straub-Huillet recusa a imersão histórica convencional. Os atores, trajados com figurinos que são mais sugestões de época do que recriações fiéis, declamam os versos alexandrinos de Corneille com uma cadência precisa e antinaturalista. A câmera, quase sempre estática, captura longos planos que enquadram os corpos e os gestos contra a paisagem arqueológica. O som é direto, cru, e a trilha sonora é a própria Roma contemporânea: o ruído incessante do tráfego, o vento que sopra entre as pedras milenares e o canto dos pássaros. Essa justaposição entre o texto do século XVII, o cenário da Roma Antiga e a sonoridade do século XX produz uma obra de estranhamento deliberado.
O filme funciona como um palimpsesto, onde camadas de tempo e significado se sobrepõem sem se fundirem. A obra não busca recriar o passado, mas sim examinar o presente através de seus vestígios. A linguagem barroca de Corneille, com sua retórica sobre honra, dever e destino, é colocada em tensão direta com a materialidade bruta das ruínas e os sons da vida moderna. O que emerge é uma análise rigorosa da palavra como instrumento de poder, demonstrando como o discurso político, seja na Roma Imperial, na França absolutista ou na Itália dos anos 1970, opera através de códigos, promessas e ameaças veladas. A performance dos atores, desprovida de psicologismo, força a atenção para a estrutura e o peso do texto.
O resultado é uma experiência cinematográfica que se afasta do drama para se aproximar de um ensaio arqueológico sobre a política. A obra investiga a persistência das estruturas de poder e a forma como a história é simultaneamente uma presença física, um texto herdado e um ruído de fundo constante. É um cinema que exige uma escuta atenta e um olhar focado, oferecendo uma meditação sobre a natureza cíclica das conspirações palacianas, onde a paisagem não é mero pano de fundo, mas um ator silencioso que testemunhou todas as ascensões e quedas.









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