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Filme: “It Might Get Loud – A Todo Volume” (2008), Davis Guggenheim

Num galpão industrial, vasto e esvaziado, três figuras se encontram diante de um arsenal de guitarras e amplificadores. Não se trata de um ensaio para um supergrupo, mas de um encontro de cúpula orquestrado pelo diretor Davis Guggenheim. O documentário ‘It Might Get Loud – A Todo Volume’ posiciona Jimmy Page, The Edge e Jack…


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Num galpão industrial, vasto e esvaziado, três figuras se encontram diante de um arsenal de guitarras e amplificadores. Não se trata de um ensaio para um supergrupo, mas de um encontro de cúpula orquestrado pelo diretor Davis Guggenheim. O documentário ‘It Might Get Loud – A Todo Volume’ posiciona Jimmy Page, The Edge e Jack White, três gerações e três ideologias da guitarra elétrica, num mesmo espaço para uma conversa que se desdobra em música. A premissa é simples, mas o resultado é uma exploração profunda sobre o que significa criar som a partir de seis cordas e eletricidade. O filme documenta o processo criativo de cada um, alternando entre os relatos pessoais, visitas a locais sagrados de suas histórias e a dinâmica do encontro no presente.

O que o diretor Davis Guggenheim propõe é um diálogo entre filosofias radicalmente distintas. Jimmy Page, a lenda do Led Zeppelin, surge como o arquiteto místico, o produtor que enxergava o estúdio como um instrumento e a guitarra como um portal para texturas e orquestrações complexas. Sua abordagem é cerebral e grandiosa, ligada a um senso de mitologia do rock. Em oposição, The Edge, o cérebro sônico do U2, se apresenta como um cientista do som, um inovador que transformou a tecnologia de pedais e efeitos em parte integral de sua linguagem. Para ele, o eco e o delay não são adornos, mas os próprios tijolos com os quais constrói suas catedrais sonoras. E então há Jack White, o purista visceral dos White Stripes, para quem a dificuldade é um catalisador. Sua busca por guitarras baratas e amplificadores temperamentais revela uma relação quase física com o instrumento, uma luta para extrair a verdade crua do blues com o mínimo de recursos.

A estrutura do filme se desenrola quase como um estudo fenomenológico, investigando não apenas a técnica, mas a experiência subjetiva de cada músico com o seu objeto de fascínio. Guggenheim nos leva a Headley Grange, onde Page concebeu ‘Stairway to Heaven’; ao colégio em Dublin onde o U2 deu seus primeiros passos; e à casa de infância em Detroit onde White construiu um violão a partir de uma garrafa de Coca-Cola e um pedaço de madeira. Essas viagens ao passado não servem para construir uma biografia tradicional, mas para contextualizar a origem de cada voz. Elas explicam por que Page busca a magia, The Edge a inovação e White a autenticidade brutal. A guitarra elétrica deixa de ser um mero objeto para se tornar uma extensão da personalidade e da visão de mundo de cada um.

A culminação acontece quando os três, finalmente, tocam juntos. O momento é desprovido de qualquer glamour de rockstar. Há uma hesitação inicial, um estudo mútuo, a busca por um terreno comum que vai além de seus próprios legados. Ao ensinarem uns aos outros riffs icônicos e ao se encontrarem em clássicos como ‘The Weight’, o filme revela sua tese central. A música é uma linguagem que se manifesta de formas infinitas, e a genialidade não reside numa fórmula única, mas na devoção obsessiva e profundamente pessoal à própria arte. ‘It Might Get Loud’ não celebra o volume pelo volume, mas investiga as fontes silenciosas e as motivações íntimas que levam um artista a querer, antes de tudo, ser ouvido.


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