Eu comecei a perder Belo Horizonte de um jeito silencioso, quase vergonhoso, como quem deixa de amar alguém e demora a perceber que o problema não é um simples cansaço passageiro. A cidade continuava fazendo seus mesmos gestos, repetindo suas mesmas frases, insistindo nos mesmos encantos, e eu já não sentia nada. Nenhuma irritação produtiva, nenhum entusiasmo verdadeiro. Só uma espécie de torpor. Eu saía de casa sem expectativa e voltava com a confirmação de que nada tinha acontecido. Isso, para mim, sempre foi o sinal mais claro de que algo morreu.
Durante muito tempo, morar aqui foi uma vitória pessoal. Eu vim do interior, de um lugar onde o futuro parecia decidido cedo demais, e Belo Horizonte era a prova concreta de que eu tinha escapado, de que eu tinha chegado a algum lugar. Estar numa capital já bastava. Eu me sentia maior só por dizer onde morava. Havia um prazer ridículo em voltar ao interior com um endereço na capital, como se isso reorganizasse a hierarquia das coisas, como se isso me vingasse. Eu demorei a perceber que esse sentimento não tinha desaparecido por ingratidão, mas porque ele simplesmente não dava mais conta de me sustentar. A cidade que um dia me ampliou parou de crescer comigo.
Belo Horizonte é uma cidade confortável demais para quem não suporta conforto como projeto de vida. Tudo aqui parece desenhado para não incomodar, para não exigir, para não sair muito do lugar. Já ouvi inúmeras vezes que BH é uma capital que conseguiu preservar traços de cidade do interior, sempre dito com orgulho, como se isso fosse um elogio. Para mim, essa frase funciona quase como uma confissão. Ela explica muita coisa.
A vida cultural reflete exatamente esse espírito. Tudo gira em círculos pequenos, com a mesma gente, as mesmas ideias, o mesmo cuidado em não ir longe demais. Não há risco real, não há choque, não há fricção. O máximo de transgressão costuma vir embalado em bom gosto, calibrado para não ofender ninguém. A estética tilelê que tomou conta da cidade não é apenas um estilo dominante; é uma ética de contenção: tudo precisa ser leve, afetuoso, artesanal, controlado, falsamente simples. Ambição soa deselegante. Excesso parece falta de educação. Eu me sinto sufocado.
A cidade também não ajuda quem tenta se mover. Circular por Belo Horizonte é cansativo de um jeito que não ensina nada, não amplia nada, não leva a lugar nenhum além do próprio cansaço. A ausência de um sistema de mobilidade urbana decente é o centro do problema. Ela organiza a cidade pelo impedimento. A Pampulha, que deveria ser um dos grandes cartões-postais de Belo Horizonte, virou um lugar ao qual quase ninguém vai simplesmente porque chegar até lá é sempre trabalhoso demais. Contagem, que está colada em BH, parece outra cidade distante, como se fosse preciso atravessar um pequeno exílio para alcançá-la. Os bairros vivem isolados uns dos outros, separados por trajetos longos, ônibus imprevisíveis e a ausência gritante de um metrô que conecte de verdade a cidade. A gente aprende a ficar onde está. Aprende a repetir os mesmos caminhos curtos, a frequentar sempre os mesmos lugares, a desistir antes mesmo de tentar. Com o tempo, isso vira mentalidade. Os serviços funcionam mal, mas ninguém parece realmente indignado. Há uma aceitação morna, quase resignada, de que as coisas são assim mesmo. Chamam isso de simplicidade. Eu chamo de falta de apetite — e, sobretudo, de uma cidade que não garante nem o direito básico de vivê-la.
O problema não é o tamanho da cidade. É o acordo silencioso de que isso basta. Em algum momento, percebi que, para continuar aqui sem atrito, eu teria que baixar o volume da minha própria vida. Falar menos, esperar menos, querer menos. Essa conta começou a ficar cara demais.
São Paulo aparece sem romantismo, quase por exclusão. Não como promessa de felicidade, mas como a possibilidade concreta de não ficar parado. Uma cidade que não tenta ser gentil, que não pede desculpa por ser excessiva, feia, barulhenta, desigual. Uma cidade que existe em escala grande e cobra um preço por isso. Meu trabalho já está lá, mas isso é o detalhe mais simples da equação. Meus pensamentos chegaram antes de mim. Meu corpo ainda resiste com medo, mas a imaginação já se mudou.
Pensar em São Paulo me devolve algo que Belo Horizonte deixou de me oferecer: tensão. A sensação física de que algo pode dar errado, de que o dia seguinte não está completamente resolvido, de que é preciso se mover para não desaparecer. Isso assusta, mas também acorda. Depois de tanto tempo vivendo num ritmo amortecido, essa eletricidade me devolve uma pulsão de vida.
Desapaixonar-se por uma cidade é admitir que ela cumpriu seu papel. Belo Horizonte foi fundamental para quem eu fui, e talvez continue sendo importante como memória, que com certeza vou querer revisitar. Mas insistir nela agora seria uma forma educada de adiar a próxima vida. Há melancolia nisso, claro, e um tipo de luto que não tem cerimônia. Ainda assim, há também um alívio quase indecente. O alívio de perceber que o desejo não morreu. Ele só ficou grande demais para continuar cabendo aqui.









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