Num canto esquecido da França, onde a monotonia cinzenta parece impregnar até a alma, Madame Souza dedica-se a uma missão singular: arrancar seu neto órfão, Champion, de uma melancolia persistente. Após tentativas frustradas com um piano e um cachorro, ela descobre a chave na forma de uma bicicleta. O que começa como um passatempo transforma-se numa obsessão solitária, uma rotina de treinos que molda o corpo e o espírito do rapaz para a maior prova de ciclismo do mundo, o Tour de France. É nesse palco de glória e exaustão que a trama de ‘As Bicicletas de Belleville’, a aclamada animação francesa de Sylvain Chomet, realmente engrena, quando Champion é abruptamente sequestrado por figuras quadradas e enigmáticas da máfia francesa, sendo levado para além do oceano.
O que se segue não é uma simples história de resgate, mas uma odisseia visualmente excêntrica e sonoramente inventiva. Guiada apenas pela determinação e acompanhada pelo fiel cão Bruno, Madame Souza cruza o Atlântico e desembarca em Belleville, uma megalópole vertiginosa que é uma caricatura deslumbrante e grotesca da cultura norte-americana. É neste ambiente caótico que ela encontra as aliadas mais improváveis: as Trigêmeas de Belleville, um trio de cantoras de music-hall da era de ouro do vaudeville, agora idosas e vivendo de uma dieta peculiar de rãs capturadas no pântano local. Juntas, essas quatro figuras femininas formam uma aliança movida a jazz cigano improvisado com aspiradores e geladeiras, e a uma lealdade inabalável para libertar o jovem ciclista das garras de seus captores, que pretendem usá-lo em um esquema de apostas clandestinas.
Sylvain Chomet constrói uma obra que ignora convenções de gênero, optando por um espetáculo quase mudo onde a narrativa é impulsionada pela expressividade de sua animação desenhada à mão e pela partitura genial de Benoît Charest. Cada frame é uma pintura detalhada, repleta de um humor melancólico e de uma beleza que reside no bizarro. A obra opera numa temporalidade própria, quase bergsoniana, onde o tempo não é medido pelo relógio do Tour de France, mas pela duração elástica da perseverança e da memória afetiva. Longe de buscar um realismo fotográfico, Chomet exagera as formas para revelar verdades sobre seus personagens e o mundo que habitam. O filme é um comentário ácido sobre a cultura do espetáculo, a solidão moderna e, acima de tudo, um tributo à tenacidade do afeto, demonstrando que os laços mais fortes são frequentemente forjados nas circunstâncias mais absurdas.









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