Em O Fantasma da Liberdade, Luis Buñuel abandona qualquer pretensão de uma narrativa convencional para orquestrar uma comédia de costumes surrealista com a precisão de um anarquista. A estrutura do filme funciona como uma corrente, onde a câmara segue um personagem até que ele cruza o caminho de outro, abandonando o primeiro e seguindo o novo, numa sucessão de vinhetas que se conectam apenas pelo acaso. A jornada começa com as tropas de Napoleão em Toledo e, sem aviso, salta para os dias atuais, acompanhando uma série de figuras da burguesia francesa em situações progressivamente insólitas: um casal procura desesperadamente pela filha desaparecida, que está o tempo todo ao seu lado; um grupo de monges joga póquer e fuma; um atirador dispara aleatoriamente sobre pedestres a partir de um arranha-céus, apenas para se tornar uma celebridade após o seu julgamento.
O que Buñuel constrói é um mundo onde as convenções sociais são viradas do avesso para expor a sua arbitrariedade. O exemplo mais célebre é o jantar em que os convidados se sentam em sanitas, conversando animadamente, e se retiram para um pequeno cubículo privado quando sentem fome. O ato de comer torna-se a nova indecência, enquanto a excreção é uma atividade socialmente aceitável. Através destas inversões, o filme investiga a natureza das nossas regras, da moralidade e da própria lógica que sustenta a civilização. Cada cena é uma peça num argumento maior sobre a hipocrisia das instituições — família, igreja, lei, exército — e a forma como elas reprimem os impulsos em nome de uma ordem que se revela frágil e sem sentido. A obra opera dentro de uma lógica do absurdo, no sentido filosófico, onde a busca humana por significado colide com um universo indiferente e irracional. A liberdade do título é, portanto, uma ilusão, uma assombração, porque os indivíduos permanecem prisioneiros de códigos que eles mesmos criaram, mas já não compreendem.
A direção de Buñuel é contida, quase documental, tratando os eventos mais bizarros com uma seriedade imperturbável que amplifica o humor negro e a inquietação. Os atores entregam as suas performances com uma naturalidade desconcertante, como se acordar com um avestruz no quarto fosse um pequeno inconveniente doméstico. Não há um clímax ou uma resolução tradicional; o filme simplesmente continua a sua cadeia de encontros fortuitos até terminar abruptamente numa cena num jardim zoológico, onde um dos personagens grita “Abaixo a liberdade!”. Este grito final, paradoxal e provocador, encapsula a essência de um filme que não oferece conclusões, mas que desmantela com inteligência e sagacidade as fundações do comportamento social.









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