Num futuro próximo, mas indefinível, o pequeno povoado de Bacurau, encravado no pó do sertão brasileiro, reúne-se para o funeral de sua matriarca, Carmelita. A comunidade, um organismo coeso e autossuficiente com sua própria médica, seu professor e figuras de autoridade local, logo percebe que eventos estranhos começam a se desenrolar. O primeiro sinal é o sumiço da cidade dos mapas digitais e do GPS. Em seguida, um drone com formato de disco voador vintage passa a vigiar os céus, e o caminhão-pipa que abastece a população chega crivado de balas. A aparente normalidade da vida cotidiana se desfaz, camada por camada, revelando uma ameaça externa, metódica e tecnologicamente superior, que se aproxima sem aviso ou explicação.
A natureza dessa ameaça se materializa na forma de um grupo de forasteiros, majoritariamente norte-americanos, liderados pela figura fria e calculista de Michael. Para eles, Bacurau não é um lugar, mas um campo de caça. Equipados com armamento avançado, comunicadores e uma indiferença sociopata, eles iniciam um safari humano por esporte, um jogo sádico onde os habitantes locais são as presas. A violência que se segue é crua e desprovida de qualquer justificativa ideológica, tratando a vida humana como um mero objeto de entretenimento. O que para os caçadores é uma excursão exótica, para os moradores de Bacurau é uma luta pela própria existência, um confronto direto com uma lógica predatória que os vê como descartáveis.
A direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constrói a narrativa com uma calma perturbadora, utilizando o formato widescreen para capturar tanto a vastidão da paisagem árida quanto a intimidade dos laços comunitários. A obra se apropria de elementos do faroeste, da ficção científica e do cinema de cerco, mas os reconfigura dentro de um contexto profundamente brasileiro. A resposta da comunidade não é a de vítimas passivas. Bacurau tem memória. Seu museu local, repleto de artefatos de conflitos passados, não é apenas um repositório de história, mas um arsenal em potencial. Diante do colapso da ordem externa — a ausência do Estado, a falha da tecnologia que deveria conectá-los ao mundo —, a cidade se volta para dentro, reativando uma forma primordial de soberania e justiça comunitária que opera para além das leis convencionais.
O filme funciona como um estudo sobre poder e apagamento. A performance de Sonia Braga como a médica Domingas e a de Udo Kier como o líder dos caçadores ancoram os dois polos dessa disputa. Um representa a terra, a história e a identidade coletiva; o outro, o neocolonialismo globalizado em sua forma mais grotesca e desumanizada. A trilha sonora, que vai de Gal Costa a composições eletrônicas tensas, e a presença de figuras como o cangaceiro Lunga, que vive à margem da própria margem, adicionam texturas que tornam o universo do filme singular. Bacurau é um exercício cinematográfico que articula uma crítica social afiada através de uma narrativa de gênero vibrante e visceral, examinando o que acontece quando uma comunidade, empurrada para o limite, decide que não será varrida do mapa.









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