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Filme: “mãe” (2017), Darren Aronofsky

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No coração de uma casa isolada, meticulosamente restaurada das cinzas de um incêndio, vive um casal. Ela, interpretada por Jennifer Lawrence, dedica-se a transformar o espaço num santuário de perfeição e serenidade; ele, um poeta vivido por Javier Bardem, luta contra um bloqueio criativo, faminto por adoração. A tranquilidade autoimposta do seu mundo é subitamente fraturada pela chegada de um estranho, um médico doente (Ed Harris) que o poeta acolhe com um entusiasmo suspeito. A perturbação inicial logo se multiplica com a chegada da esposa do homem (Michelle Pfeiffer), cuja presença invasiva e provocadora começa a desmontar as frágeis regras do lar. O que começa como uma violação da etiqueta social rapidamente escala para um pesadelo febril, à medida que a casa se torna um ponto de convergência para um número crescente de seguidores, todos atraídos pela figura do poeta.

Darren Aronofsky constrói em ‘mãe!’ não exatamente uma narrativa linear, mas uma alegoria febril sobre o processo criativo, a natureza e a insaciável necessidade humana por significado. A câmera, quase umbilicalmente ligada à personagem de Lawrence, aprisiona o espectador na sua perspectiva sufocante. Cada rangido do soalho, cada olhar indesejado e cada novo convidado que atravessa a porta sem permissão é uma agressão direta não apenas ao seu espaço físico, mas ao seu próprio ser. A casa deixa de ser um lar para se tornar um palco para o ego do artista e o fervor caótico dos seus admiradores. Aronofsky orquestra uma sinfonia de ansiedade crescente, onde a lógica se desintegra progressivamente, dando lugar a uma sequência de eventos que espelham ciclos de criação e destruição em escala bíblica e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal.

A obra pode ser analisada sob a ótica do conceito heideggeriano de “habitar” (Wohnen), onde o ato de morar é fundamental para a existência e o bem-estar do ser. A personagem de Lawrence não apenas vive na casa; ela é a casa. Sua identidade está fundida com a estrutura, e a invasão implacável dos estranhos representa uma profanação ontológica, um ataque direto à sua essência. Bardem, por sua vez, encarna o criador que necessita do Outro, do mundo exterior, para validar a sua existência, sacrificando o sagrado e o privado em troca de aclamação. O filme opera como um exercício de terror psicológico que extrai o seu poder não de sustos convencionais, mas da erosão metódica da segurança e da sanidade, transformando um drama doméstico numa apocalíptica ópera de câmara. É uma construção cinematográfica deliberadamente polarizadora, uma experiência visceral que se aloja na mente muito depois de os créditos subirem.

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No coração de uma casa isolada, meticulosamente restaurada das cinzas de um incêndio, vive um casal. Ela, interpretada por Jennifer Lawrence, dedica-se a transformar o espaço num santuário de perfeição e serenidade; ele, um poeta vivido por Javier Bardem, luta contra um bloqueio criativo, faminto por adoração. A tranquilidade autoimposta do seu mundo é subitamente fraturada pela chegada de um estranho, um médico doente (Ed Harris) que o poeta acolhe com um entusiasmo suspeito. A perturbação inicial logo se multiplica com a chegada da esposa do homem (Michelle Pfeiffer), cuja presença invasiva e provocadora começa a desmontar as frágeis regras do lar. O que começa como uma violação da etiqueta social rapidamente escala para um pesadelo febril, à medida que a casa se torna um ponto de convergência para um número crescente de seguidores, todos atraídos pela figura do poeta.

Darren Aronofsky constrói em ‘mãe!’ não exatamente uma narrativa linear, mas uma alegoria febril sobre o processo criativo, a natureza e a insaciável necessidade humana por significado. A câmera, quase umbilicalmente ligada à personagem de Lawrence, aprisiona o espectador na sua perspectiva sufocante. Cada rangido do soalho, cada olhar indesejado e cada novo convidado que atravessa a porta sem permissão é uma agressão direta não apenas ao seu espaço físico, mas ao seu próprio ser. A casa deixa de ser um lar para se tornar um palco para o ego do artista e o fervor caótico dos seus admiradores. Aronofsky orquestra uma sinfonia de ansiedade crescente, onde a lógica se desintegra progressivamente, dando lugar a uma sequência de eventos que espelham ciclos de criação e destruição em escala bíblica e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal.

A obra pode ser analisada sob a ótica do conceito heideggeriano de “habitar” (Wohnen), onde o ato de morar é fundamental para a existência e o bem-estar do ser. A personagem de Lawrence não apenas vive na casa; ela é a casa. Sua identidade está fundida com a estrutura, e a invasão implacável dos estranhos representa uma profanação ontológica, um ataque direto à sua essência. Bardem, por sua vez, encarna o criador que necessita do Outro, do mundo exterior, para validar a sua existência, sacrificando o sagrado e o privado em troca de aclamação. O filme opera como um exercício de terror psicológico que extrai o seu poder não de sustos convencionais, mas da erosão metódica da segurança e da sanidade, transformando um drama doméstico numa apocalíptica ópera de câmara. É uma construção cinematográfica deliberadamente polarizadora, uma experiência visceral que se aloja na mente muito depois de os créditos subirem.

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