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Filme: “1900” (1976), Bernardo Bertolucci

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Na virada do século XX, na mesma propriedade rural da Emilia-Romanha, Itália, nascem dois meninos: Alfredo Berlinghieri, neto do latifundiário, e Olmo Dalcò, neto do capataz camponês. A monumental saga de Bernardo Bertolucci, ‘1900’, acompanha as vidas entrelaçadas destes dois homens, interpretados na idade adulta por Robert De Niro e Gérard Depardieu, respectivamente. Suas trajetórias, uma marcada pelo privilégio e pela inércia, a outra pela convicção e pela ação, servem como o fio condutor através de cinquenta anos turbulentos da história italiana. A amizade de infância, forjada em descobertas e transgressões, é continuamente posta à prova pelas rígidas barreiras sociais que os definem como “padrone” e “contadino”.

A obra de Bertolucci, com sua duração original de mais de cinco horas, é uma ambiciosa tentativa de mapear a transformação de uma nação através do microcosmo desta relação. O filme atravessa a ascensão dos movimentos socialistas e das ligas camponesas, a brutalidade da Primeira Guerra Mundial, a ascensão insidiosa do fascismo, personificado na figura sádica de Attila Mellanchini (Donald Sutherland), e a subsequente libertação. A narrativa não se detém em eventos pontuais, mas mergulha na forma como as grandes correntes ideológicas se infiltram no cotidiano, envenenando relações, corrompendo a terra e moldando o destino de gerações. A política aqui não é um pano de fundo; é a força gravitacional que deforma o tempo e o espaço pessoal.

Em sua essência, ‘1900’ explora uma dialética quase hegeliana da dominação e da dependência. Alfredo, o senhor da terra, é paradoxalmente prisioneiro de sua própria classe, incapaz de agir ou de sentir genuinamente sem a validação ou oposição de Olmo. Olmo, por sua vez, encontra sua identidade e propósito na luta coletiva contra a estrutura que Alfredo representa. Bertolucci usa a câmera de Vittorio Storaro para pintar esta dinâmica com uma paleta visual expressiva, onde a luz dourada das estações de colheita dá lugar à fotografia fria e sombria dos anos de opressão fascista. A crueza com que o filme aborda a sexualidade e a violência não é gratuita, mas um método para expor como o corpo se torna um campo de batalha para as ideologias em conflito.

O filme é um espetáculo operático, por vezes excessivo e teatral em sua representação da luta de classes, mas sua força reside precisamente nesta grandiosidade. Bertolucci não se propõe a um realismo documental, mas a uma crônica mítica e apaixonada sobre o século que forjou a Itália moderna. O ato final, que ocorre no dia da Libertação em 1945, não oferece um encerramento simples para a disputa entre Alfredo e Olmo. Em vez disso, apresenta um julgamento popular, quase carnavalesco, que sugere que o conflito entre as classes é um drama perpétuo, destinado a ser reencenado. É um estudo cinematográfico de como a história pessoal é indissociável da história coletiva, um conto sobre dois homens que, nascidos no mesmo dia, nunca puderam verdadeiramente partilhar o mesmo mundo.

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Na virada do século XX, na mesma propriedade rural da Emilia-Romanha, Itália, nascem dois meninos: Alfredo Berlinghieri, neto do latifundiário, e Olmo Dalcò, neto do capataz camponês. A monumental saga de Bernardo Bertolucci, ‘1900’, acompanha as vidas entrelaçadas destes dois homens, interpretados na idade adulta por Robert De Niro e Gérard Depardieu, respectivamente. Suas trajetórias, uma marcada pelo privilégio e pela inércia, a outra pela convicção e pela ação, servem como o fio condutor através de cinquenta anos turbulentos da história italiana. A amizade de infância, forjada em descobertas e transgressões, é continuamente posta à prova pelas rígidas barreiras sociais que os definem como “padrone” e “contadino”.

A obra de Bertolucci, com sua duração original de mais de cinco horas, é uma ambiciosa tentativa de mapear a transformação de uma nação através do microcosmo desta relação. O filme atravessa a ascensão dos movimentos socialistas e das ligas camponesas, a brutalidade da Primeira Guerra Mundial, a ascensão insidiosa do fascismo, personificado na figura sádica de Attila Mellanchini (Donald Sutherland), e a subsequente libertação. A narrativa não se detém em eventos pontuais, mas mergulha na forma como as grandes correntes ideológicas se infiltram no cotidiano, envenenando relações, corrompendo a terra e moldando o destino de gerações. A política aqui não é um pano de fundo; é a força gravitacional que deforma o tempo e o espaço pessoal.

Em sua essência, ‘1900’ explora uma dialética quase hegeliana da dominação e da dependência. Alfredo, o senhor da terra, é paradoxalmente prisioneiro de sua própria classe, incapaz de agir ou de sentir genuinamente sem a validação ou oposição de Olmo. Olmo, por sua vez, encontra sua identidade e propósito na luta coletiva contra a estrutura que Alfredo representa. Bertolucci usa a câmera de Vittorio Storaro para pintar esta dinâmica com uma paleta visual expressiva, onde a luz dourada das estações de colheita dá lugar à fotografia fria e sombria dos anos de opressão fascista. A crueza com que o filme aborda a sexualidade e a violência não é gratuita, mas um método para expor como o corpo se torna um campo de batalha para as ideologias em conflito.

O filme é um espetáculo operático, por vezes excessivo e teatral em sua representação da luta de classes, mas sua força reside precisamente nesta grandiosidade. Bertolucci não se propõe a um realismo documental, mas a uma crônica mítica e apaixonada sobre o século que forjou a Itália moderna. O ato final, que ocorre no dia da Libertação em 1945, não oferece um encerramento simples para a disputa entre Alfredo e Olmo. Em vez disso, apresenta um julgamento popular, quase carnavalesco, que sugere que o conflito entre as classes é um drama perpétuo, destinado a ser reencenado. É um estudo cinematográfico de como a história pessoal é indissociável da história coletiva, um conto sobre dois homens que, nascidos no mesmo dia, nunca puderam verdadeiramente partilhar o mesmo mundo.

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