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Filme: “Lola, Uma Mulher Alemã” (1981), Rainer Werner Fassbinder

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Em uma pequena cidade alemã em 1957, o ar é denso com a promessa do “milagre econômico” e o cheiro de concreto fresco. É neste cenário de reconstrução e otimismo forçado que Rainer Werner Fassbinder situa a trama de Lola, Uma Mulher Alemã. A chegada de von Bohm, um novo comissário de obras públicas íntegro e guiado por uma bússola moral kantiana, agita as águas estagnadas da corrupção local. Ele pretende aplicar a lei e expor os acordos ilícitos do magnata da construção Schuckert, o poder fático que controla a cidade a partir dos fundos de um bordel de luxo. A premissa parece um drama de moralidade clássico, mas Fassbinder está interessado em desmontar as engrenagens, não em celebrar virtudes.

O conflito se cristaliza quando von Bohm se apaixona por uma mulher que conhece como a reservada Marie-Luise. Mal sabe ele que essa figura discreta é, sob as luzes de neon do cabaré, Lola, a principal atração do estabelecimento de Schuckert e a mercadoria mais valiosa da cidade. Interpretada com uma precisão cirúrgica por Barbara Sukowa, Lola não é uma vítima do sistema, mas sua negociadora mais astuta. Ela compreende seu valor e navega pelas transações de poder com um pragmatismo que desarma tanto a hipocrisia dos empresários quanto o idealismo do comissário. A narrativa se desenvolve a partir desta ironia dramática, onde o homem que busca a pureza se encanta justamente pelo símbolo da podridão que ele se propõe a combater.

Fassbinder emprega uma paleta de cores saturada, quase nauseante, que remete aos melodramas de Douglas Sirk, mas com um propósito diferente. A fotografia de Xaver Schwarzenberger banha as cenas em tons de azul, rosa e verde elétricos, sublinhando a artificialidade da prosperidade e a fachada plástica que encobre a decomposição moral. O que se observa é um processo de reificação quase didático, onde o amor, a integridade e os afetos se tornam itens em uma prateleira, precificados e prontos para a transação que manterá a estrutura de poder intacta. A Alemanha que se reergue dos escombros o faz sobre fundações eticamente duvidosas, e cada personagem participa do leilão, consciente ou inconscientemente.

O desfecho não oferece catarse, mas sim um diagnóstico frio e profundamente cínico da sociedade capitalista. A integridade de von Bohm é finalmente testada, não por uma grande batalha moral, mas por um arranjo de negócios que o acomoda confortavelmente dentro da estrutura que ele inicialmente desprezava. Lola, Uma Mulher Alemã é uma fábula ácida sobre como o capital não apenas corrompe, mas assimila. O sistema não é derrotado, ele simplesmente absorve suas críticas, transformando-as em mais um de seus componentes funcionais. É a crônica de uma nação e de um sistema econômico onde tudo, absolutamente tudo, tem um preço de mercado.

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Em uma pequena cidade alemã em 1957, o ar é denso com a promessa do “milagre econômico” e o cheiro de concreto fresco. É neste cenário de reconstrução e otimismo forçado que Rainer Werner Fassbinder situa a trama de Lola, Uma Mulher Alemã. A chegada de von Bohm, um novo comissário de obras públicas íntegro e guiado por uma bússola moral kantiana, agita as águas estagnadas da corrupção local. Ele pretende aplicar a lei e expor os acordos ilícitos do magnata da construção Schuckert, o poder fático que controla a cidade a partir dos fundos de um bordel de luxo. A premissa parece um drama de moralidade clássico, mas Fassbinder está interessado em desmontar as engrenagens, não em celebrar virtudes.

O conflito se cristaliza quando von Bohm se apaixona por uma mulher que conhece como a reservada Marie-Luise. Mal sabe ele que essa figura discreta é, sob as luzes de neon do cabaré, Lola, a principal atração do estabelecimento de Schuckert e a mercadoria mais valiosa da cidade. Interpretada com uma precisão cirúrgica por Barbara Sukowa, Lola não é uma vítima do sistema, mas sua negociadora mais astuta. Ela compreende seu valor e navega pelas transações de poder com um pragmatismo que desarma tanto a hipocrisia dos empresários quanto o idealismo do comissário. A narrativa se desenvolve a partir desta ironia dramática, onde o homem que busca a pureza se encanta justamente pelo símbolo da podridão que ele se propõe a combater.

Fassbinder emprega uma paleta de cores saturada, quase nauseante, que remete aos melodramas de Douglas Sirk, mas com um propósito diferente. A fotografia de Xaver Schwarzenberger banha as cenas em tons de azul, rosa e verde elétricos, sublinhando a artificialidade da prosperidade e a fachada plástica que encobre a decomposição moral. O que se observa é um processo de reificação quase didático, onde o amor, a integridade e os afetos se tornam itens em uma prateleira, precificados e prontos para a transação que manterá a estrutura de poder intacta. A Alemanha que se reergue dos escombros o faz sobre fundações eticamente duvidosas, e cada personagem participa do leilão, consciente ou inconscientemente.

O desfecho não oferece catarse, mas sim um diagnóstico frio e profundamente cínico da sociedade capitalista. A integridade de von Bohm é finalmente testada, não por uma grande batalha moral, mas por um arranjo de negócios que o acomoda confortavelmente dentro da estrutura que ele inicialmente desprezava. Lola, Uma Mulher Alemã é uma fábula ácida sobre como o capital não apenas corrompe, mas assimila. O sistema não é derrotado, ele simplesmente absorve suas críticas, transformando-as em mais um de seus componentes funcionais. É a crônica de uma nação e de um sistema econômico onde tudo, absolutamente tudo, tem um preço de mercado.

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