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Filme: “Storytelling” (2001), Todd Solondz

O filme de Todd Solondz, Storytelling, se divide em duas narrativas distintas, “Ficção” e “Não-ficção”, que funcionam como um díptico sobre o ato de criar e consumir narrativas. Na primeira parte, acompanhamos Vi, uma estudante universitária que, numa tentativa de encontrar material para sua aula de escrita criativa, se envolve com seu professor, um homem…


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O filme de Todd Solondz, Storytelling, se divide em duas narrativas distintas, “Ficção” e “Não-ficção”, que funcionam como um díptico sobre o ato de criar e consumir narrativas. Na primeira parte, acompanhamos Vi, uma estudante universitária que, numa tentativa de encontrar material para sua aula de escrita criativa, se envolve com seu professor, um homem negro com paralisia cerebral. A história que ela produz a partir dessa experiência é crua e controversa, gerando uma colisão entre suas intenções artísticas e a percepção do mundo ao seu redor. A segunda parte, “Não-ficção”, foca em Toby, um documentarista sem sucesso que vê sua grande chance ao decidir filmar o cotidiano da família Livingston, um clã suburbano disfuncional cujo filho mais velho, Scooby, é um adolescente apático com o vago desejo de se tornar uma celebridade de talk show.

A conexão entre os dois segmentos reside na exploração das dinâmicas de poder e da ética por trás da construção de uma história. Solondz investiga o ato de contar histórias não como um processo puro de criação, mas como uma forma de apropriação, exploração e, por vezes, de autoengano. A câmera de Toby e a caneta de Vi funcionam como instrumentos que solidificam o olhar do outro, um conceito sartreano onde o sujeito é transformado em objeto pela percepção alheia. A família Livingston deixa de ser uma família para se tornar “personagens”, e a experiência sexual de Vi é reduzida a “material”. O filme questiona quem tem o direito de contar a história de quem e qual o custo humano de transformar a vida em conteúdo, seja ele artístico ou documental.

Com uma direção notavelmente desapaixonada e uma câmera que observa seus personagens com uma distância clínica, Solondz constrói um ambiente de desconforto calculado. As performances são intencionalmente contidas, ressaltando o vazio e a artificialidade das interações sociais no subúrbio americano. A notória caixa vermelha imposta pela censura sobre uma cena de sexo no primeiro segmento torna-se, ironicamente, um dos comentários mais potentes do filme, uma intervenção externa que expõe a arbitrariedade do que é considerado aceitável em uma narrativa. Ao final, sem oferecer qualquer tipo de catarse ou julgamento moral, Storytelling se revela um estudo ácido sobre os mecanismos, muitas vezes cruéis, que regem a construção de qualquer relato.


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