Muitas vezes me pego pensando no que significa, de fato, ser homem ou ser mulher. Não é uma questão nova, mas ganhou um peso diferente em nosso tempo. A possibilidade de transicionar de um gênero para outro, de moldar o corpo com hormônios e cirurgias, ou até mesmo de destransicionar, trouxe à tona um debate que não é apenas político, mas também ontológico. O que sustenta a identidade de gênero? Até que ponto ela é fluida e até que ponto carrega uma continuidade que não pode ser apagada?
Não é difícil perceber que o olhar social se guia sobretudo pela aparência. Quando encontramos alguém na rua, não pedimos exames, não investigamos cromossomos. Nós lemos sinais: roupas, voz, gestos, feições. Nesse sentido, parecer homem ou parecer mulher é o que orienta a forma como a sociedade nos reconhece. Essa camada performativa é inegável e mostra que gênero não pode ser reduzido ao biológico. Ao mesmo tempo, não me convence a ideia de que tudo seja apenas performance. Se fosse, não haveria experiências de destransição marcadas por um sentimento de retorno, de reencontro com algo que permanecia.
O que me intriga é justamente essa tensão. Por um lado, há a plasticidade, a possibilidade de mudar e reivindicar outra identidade. Por outro, existe uma espécie de eixo contínuo, uma materialidade que insiste em se manter e que talvez sustente a experiência de ser homem ou mulher em um sentido mais profundo. É nesse ponto que me sinto dividido. A teoria de gênero, especialmente a que afirma a fluidez radical, ajuda a entender muitos fenômenos contemporâneos, mas deixa em aberto se não existe algo mais resistente que escapa à pura escolha e à pura aparência.
Não consigo deixar de pensar em como a filosofia, desde sempre, buscou o que há de contínuo por trás das mudanças. Heráclito dizia que tudo flui, mas Parmênides insistia que há algo imóvel, que permanece. Talvez o gênero hoje esteja colocado justamente nessa mesma disputa antiga: entre a transformação visível e a permanência invisível. O corpo pode ser modificado, o modo de se apresentar pode se reinventar, mas será que há um núcleo que insiste em nos puxar de volta, uma identidade que não se dissolve completamente?
Ao mesmo tempo, reduzir o gênero a uma essência fixa me parece igualmente problemático. Se fosse apenas biologia, não haveria tanta gente que encontra sentido profundo em viver de outra maneira, que sente o peso da dissonância entre corpo e identidade. É nessa fricção que o debate se torna inevitável: negar a biologia é simplista, negar a subjetividade também é. O que me parece mais honesto é admitir que vivemos em um campo de tensões.
Talvez a grande questão não seja escolher entre fluidez ou continuidade, mas reconhecer que ambas coexistem. Há algo de mutável e algo de resistente, e a experiência humana do gênero se dá justamente nesse atrito. É nesse ponto que me sinto desafiado como estudante de filosofia: pensar que ser homem ou mulher não é apenas um estado fixo, mas tampouco um jogo sem raízes. É um processo que envolve transformação e permanência, liberdade e limite.
E talvez seja exatamente por isso que o tema incomoda tanto. Ele nos força a reconhecer que não temos um terreno sólido, mas também não vivemos no puro vazio. Ser homem ou ser mulher é uma travessia feita de escolhas, mas também de algo que nos precede e nos ultrapassa. Se não houvesse nada contínuo, não haveria nem mesmo o que chamar de gênero. E se houvesse apenas continuidade, não haveria espaço para as experiências trans, para as reinvenções e para as rupturas. Sou contra determinismos biológicos, acho que tudo de mais grandioso que o ser humano conquistou foi sempre desafiando a natureza.
Por isso, quanto mais penso, mais percebo que não se trata de resolver o dilema, mas de habitá-lo. O gênero talvez seja um desses lugares em que a filosofia deve se demorar, sem pressa de concluir. Porque é nessa demora, nesse reconhecimento da contradição, que podemos enxergar com mais clareza tanto a liberdade de mudar quanto o peso daquilo que permanece.









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