“WR: Os Mistérios do Organismo”, do cineasta iugoslavo Dušan Makavejev, é um turbilhão de sexo, política e comédia que atinge o espectador com a força de um choque cultural. Lançado em 1971, o filme é um híbrido ousado de documentário, ficção e material de arquivo, costurados com uma costura experimental que desafia as convenções narrativas. No centro da tempestade está Wilhelm Reich, o controverso psicanalista que acreditava na existência de uma energia vital, a “orgone”, e na importância da libertação sexual. Makavejev não se limita a ilustrar as teorias de Reich. Ele as joga na arena da vida real, confrontando-as com a repressão sexual da Europa Oriental comunista e com a aparente liberdade sexual do Ocidente capitalista.
O filme acompanha Milena, uma jovem iugoslava adepta das ideias de Reich, que busca libertar o desejo sexual em sua comunidade. Suas tentativas, no entanto, revelam a hipocrisia e a rigidez moral que se escondem sob a fachada da ideologia. Paralelamente, acompanhamos a reação à obra de Reich nos Estados Unidos, com entrevistas e discussões que expõem a complexidade e a controvérsia de suas ideias. A montagem frenética, com imagens que vão de Chaplin a Stalin, de experimentos científicos a cenas de sexo explícito, cria um efeito vertiginoso, quase psicodélico. Makavejev utiliza o choque e a provocação para forçar o espectador a confrontar suas próprias crenças e tabus.
“WR: Os Mistérios do Organismo” não é uma biografia convencional de Reich, tampouco um manifesto político simplista. É uma exploração corajosa e irreverente da relação entre sexualidade, poder e ideologia. O filme pode ser interpretado como uma crítica à forma como as estruturas de poder, sejam elas políticas ou religiosas, frequentemente buscam controlar o corpo e o desejo. Ao fazer isso, Makavejev questiona se a verdadeira liberdade reside na libertação sexual ou se ela é apenas mais uma forma de opressão, um fetiche que mascara outras formas de controle. O filme flerta com a ideia de um “devir-mulher” nietzschiano, em que a transgressão dos limites impostos ao corpo feminino se torna um ato de resistência. Mais do que oferecer respostas fáceis, “WR” provoca um debate urgente sobre a natureza da liberdade e os limites da transgressão.









Deixe uma resposta