Imagine John Waters e Pasolini num pub londrino, bebendo até a última hora e decidindo filmar uma sátira sobre a hipocrisia da elite britânica. O resultado seria algo próximo de O Intruso, novo filme de Bruce LaBruce que mistura sexo sem simulação, crítica anticolonial e um humor tão ácido que corroeria o mármore de Buckingham Palace. O enredo? Um Adonis negro (Bishop Black) emerge de uma mala no Tâmisa — metáfora visual tão óbvia quanto eficaz — e invade uma mansão de vidro habitada por uma família rica, virando de cabeça para baixo suas certezas sobre classe, raça e prazer.
LaBruce não perde tempo com sutilezas. Enquanto o discurso xenófobo de Enoch Powell ecoa na trilha sonora, o visitante inicia uma cruzada sexual que inclui desde um ménage com pai e filha até um jantar onde brownies (de chocolate, relaxe) viram objeto de um ritual escatológico. É cinema como provocação, mas com método: cada cena de nudez ou acrobacia genital serve para esfregar na cara do espectador a contradição de uma nação que idolatra gentlemen de terno mas treme diante de corpos que fogem ao padrão. A lubrificação abundante nas cenas de sexo, filmada com close-ups que beiram o asmr, quase vira personagem — uma ironia pegajosa sobre como o prazer pode ser tanto conexão quanto arma.
O filme é, antes de tudo, um middle finger ao puritanismo digital e à xenofobia do Brexit. Slogans como “COLONIZE O COLONIZADOR” piscam entre as cenas como hashtags de uma revolução que usa o deboche como tática. Se Pasolini, em Teorema, questionava a divindade, LaBruce ataca a santidade da família nuclear. A mãe (Amy Kingsmill), de início rígida e conservadora, entrega-se ao visitante com um entusiasmo que faria até Freud rir; o filho (Kurtis Lincoln) descobre novas preferências com uma naturalidade que desmonta qualquer noção de “normalidade”.
Aqui, o diretor — figura-cult do cinema queer desde os anos 1990 — brinca com sua própria reputação. As cenas mais explícitas, embora chocantes, carregam um humor camp: o dildo em forma de crucifixo, a escolha de filmar em locações que lembram aquários de luxo, a trilha sonora eletrônica que parece saída de uma boate underground. É como se LaBruce dissesse: “Sim, isso é pornográfico, mas você riu”.
O Intruso não é para todos (a cena do “jantar” testará até fãs de Pink Flamingos), mas é difícil não admirar sua audácia. Em tempos de cinema pasteurizado, LaBruce lembra que filmes podem ser perigosos, desconfortáveis e — por que não? — divertidamente transgressores. Se a recepção no Festival de Berlim foi polarizada, eis o veredito: uma bomba de efeito moral que, como todo bom escândalo, diz mais sobre quem se incomoda do que sobre quem a criou.
“O Intruso”, Bruce LaBruce
Reserva Imovision




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